
O carnaval é a festa mais aguardada durante o ano por muitos de nós brasileiros. Como o meu caso, por exemplo. E todo brasileiro que gosta de carnaval tem um sonho em comum: conhecer o carnaval da Bahia. Novamente, meu caso. Confesso que, na verdade, apenas a partir do ano 2001 – quando foi proibido aparelhos de sons nas casas em Olinda – esse sonho passou a ser cada vez mais evidente em mim. E a partir do início deste ano todo o universo parecia estar conspirando a favor de realizá-lo – e da melhor forma possível: acompanhado dos melhores amigos, não conhecidos que se uniram por uma mera fatalidade para viajar, mas os meus melhores amigos do dia-a-dia.
A história já começava a ficar interessante justamente aí. Ademais, é engraçado perceber até aonde o ser humano é capaz de ir quando está mto focado em algum objetivo. Vejam bem, quando todos os membros de nossa trupe – composta por 6 amigos –confirmaram a viagem, todos entraram espontaneamente numa rigorosa preparação quase digna de uma olimpíada. Éramos 6 sedentários e/ou tabagistas inveterados que de repente estávamos realizando, cada um, uma alimentação balanceadíssima, kms de corrida diariamente na esteira e, para alguns, ainda, até algumas festas pré-carnavalescas foram poupadas; outros, inclusive, utilizaram até métodos questionáveis como uma amalucada mentalização chinesa em que se deveria visualizar toda sua gordura corporal se derretendo, e isso durante rigorosos 28 (?) dias seguidos....
Por tudo isso, inevitavelmente, uma expectativa e uma ansiedade cada vez maior foram aumentando. E isso é até pouco salutar porque poderia atrapalhar nosso discernimento sobre o carnaval, já que toda sensação de prazer está vinculada à superação de expectativa.... e quando se está com muita expectativa sobre alguma coisa, você pode acabar sub-valorizando algo que é inerentemente espetacular.
Enfim, chegara o dia. Domingo de carnaval. Fomos os 6 no mesmo vôo da Gol. A viagem inteira demorou apenas quatro dias e mesmo após tantas expectativas, não tenho dúvidas, conseguiu, ainda assim, superar a de todo mundo. Viajar com vários amigos sempre é muito bom, e por isso foram quatro dias inesquecíveis. O carnaval de lá realmente faz jus a fama que tem. É extremamente divertido, seguro e muito bem organizado. E por tudo isso passei a concordar com Bell do Chiclete: “não morra sem conhecer o carnaval da Bahia”.
E com o intuito de eternizar alguns dos momentos mais marcantes dessa viagem resolvi selecionar, após uma rigorosa avaliação, os 21 principais acontecimentos, sejam frases ou fatos marcantes. Para dessa forma poder dividir nossa alegria com o restante de nossos amigos que não puderam ir, como também dificultar o processo inexorável e deletério que o tempo tem em algumas preciosidades em nossa memória. Vamos a eles:
Antes é necessário esclarecer alguns termos que serão usados:
O verbo Malvadear – pode ser usado em várias situações. Quando a pessoa se perdeu, ou está dando uma atenção excessiva ao cabelo, ou está muito bêbado no fim de alguma festa (vide splintear)
O Verbo Splintear – Em alusão ao lendário rato Mestre Splinter das tartarugas ninjas. Que é utilizado quando a pessoa está num estado alcoólico muito avançado.
21
“Me dá essa moeda... me dá esse cigarro.... me dá um golinho... me dá esse chiclete.... me dá.... me dá...”
Dos cordeiros mais pidões do mundo, tirando todos do sério e, em especial, o representante mais estressado do nosso seleto Grupo dos Estressadinhos: Malvado, que por muito pouco não teve um piti frente à admiravél pedintaria obstinada e incansável dos referidos cordeiros (eles são brasileiros e não desistem nunca)
20
“Vamos começar a levar ré?”
O capitão do nosso time encorajando a todos a saírem daquela inércia coletiva abordativa. Com uma sobriedade alcoolizada nos fazendo perceber que era preferível levar "ré" de um monte de gatas a ficar com aquela postura estagnante, marasmática e quase melancólica.
19
“Ei, ei... eeeiii acooordaa!!. Me empresta 30 reais que o taxista está lá embaixo esperando”
Malvado malvadeando splinteado às 6h, acabara de voltar sozinho de taxi. Detalhe que o percurso de Ondina até o nosso hotel dava mais ou menos 13 reais, e o taxista se aproveitanto do precário estado de nosso amigo resolveu se aproveitar.
18
“Tenho o camarote Salvador da terça-feira por 850 reais.” Um cambista oferecendo a Leozinho o camarote, na frente da sede do camarote Salvador
“Tá ótimo (?). Vou querer” Leozinho, demonstrando todo o sua argúcia e habilidade como negociante, e sua capacidade espantosa de ser persuadido sem contestar. Detalhe que minutos depois Vilaça conseguiu o mesmo camarote por 700 reais.
17
“E aí, e aí, já pegou as negas”
Do vendedor de cervejas para Malvado após vê-lo splinteado tentado experimentar o tempero que uma baiana afrodescendente tem.
16
“Que porra é isso Leozinho?!!”
Gildo e Malvado em uníssono, imediatamente após entrarem no quarto 202, onde encontrava-se APENAS Leozinho e terem suas narinas invadidas por uma inhaca fecalóide e nauseante que exalava por todo quarto. Os dois correram desesperados para tentar se refugiar abrindo a janela (isso mesmo, ela estava fechada). E após uma tomada de ar puro, os dois se viram para trás, testas franzidas e olhos arregalados, denunciando o pânico de não acreditar como alguém poderia ainda estar vivo naquele quarto, e ao olharaem para Leozinho que repousava impassível na cama, este com um sorriso entre os lábios, falou: “Tranquilo. Hehehe”
P.S. Nosso amigo Leozinho pós-carnavalescamente tentou se justificar: "Eu não fui CUlpado por aquele cheiro fecalóide no quarto, mas o verdadeiro CU lpado ou foi Arabaiana ou Xico, que momentos antes de Gildo e Malvado terem entrando no quarto, haviam utilizado o banheiro com fins evacuativos". Mas Leozinho, retrucamos, isso não explica como você estava aguentando bem "tranquilo" aquela inhaca assustadora, ao que ele respondeu: "É que eu estava com nariz entupido, e nem tinha percebido a fetidez" Ahhhhhh, então, tá.....
15
- “Malvado me dê meu cinto!”
Gilton solicitando a devolução de seu cinto não no hotel, mas em pleno camarote Salvador. Detalhe que Malvado sempre muito minucioso, estava se achando o máximo usando-o em sua indumentária, já que o mesmo ficava aparecendo. E para nosso amigo isso estava proporcionando a ele o máximo da balaca.
Malvado, então, tristemente o devolveu.
“E aí Malvado sua auto-estima caiu?” Leozinho já pressentindo a angústia por que deveria estar passando nosso amigo ao ter toda a harmonia de sua vestimenta desfeita
“Despencou” Malvado cabisbaixo, em tom sério e funéreo
14
“Se formos somar as idades das meninas que Sandro pegou nesse carnaval vai dar 854 anos”
Gilton fazendo um comentário pertinente
P.S Sandro, inclusive, mandou avisar que no carnaval do ano que vem a meta dele será abrir o carnaval com a querida TIA ZILÚ, musa da terceira idade do carnaval de 2008, que estará com 96 anos...
13
“Olhe eu quero lhe falar que estou com esse monte coisas aqui mas não sou viado não, viu?”
Gildo explicando para o amigo de Vilaça, dono da lancha, que já estava achando estranho por que iria disponibilizar sua lancha para 6 homens, sobretudo por que um deles estava cheio de colares e pulseiras mto suspeitas.
A explicação é que Gildo foi o único que fora ao pelourinho, e nessa ida cruzou o seu caminho uma baiana bastante astuta, e a mesma o persuadiu a comprar vários colares (pra ele e sua família) no tempo recorde de 5 minutos. Sem ter onde guardá-los, restou descer do pelourinho com todos em seu corpo: dois colares no pescoço, um colar vermelho todo enrolado no pulso e outro marrom enrolado no outro pulso. Uma combinação deveras suspeita.

12
“Vc paga quanto pra trabalhar aqui?”
Gildo para o marinheiro da lancha, acreditando que valesse a pena até pagar pra trabalhar naquela orla de Salvador.
11
“Cadê Malvado?”
Umas das perguntas mais ouvidas em nossa jornada. Realmente nosso amigo autista tinha uma capacidade absurda de desaparecer.
Na mais impressionante delas, ele conseguiu a façanha de se perder em menos de 3 minutos logo após termos chegado no bloco ME ABRAÇA do segundo dia. Detalhe que chegamos todos juntos e estávamos ainda lá atrás onde qualquer pessoa conseguiria nos encontrar, ou melhor, quase qualquer pessoa...
10
“Oww Vilaça esse negócio de esnobar mulher não dá certo com a gente não. Dá certo com Malvado, Leozinho, Gilton, que têm cabelo liso, mas com a gente não dá certo não”
Xico em mais uma de suas mirabolantes teorias.
9
- “Powww arrrrrrrsssssss traeghhhh”
A sonoplastia da queda de Malvado no barranco da lama “molhada” (Estava molhada, mas não chovia. Que coisa!). Ainda estava na metade do percurso Barra-Ondina, e nosso amigo estava completamente melado de lama de cima a baixo, e o pior que ele ainda teve que ouvir as risadinhas dos canelais que presenciaram todo o seu rolamento morro abaixo.
Ainda bem que no último dia eles voltaram a se encontrar e fizeram as pazes direitinho (foto abaixo)

8
“Leozinho deixa de ser falso”
Gildo desmascarando o joguinho de nosso amigo.
Momentos antes, em torno de meio-dia, nosso grupo, pra economizar um taxi, foi dividido: Gilton, Xico e Malvado, continuariam descansando no quarto do hotel no ar-condicionado, enquanto Gildo, Leozinho e Vilaça iriam pegar um taxi e ir até o Aeroclube tentar realizar a troca dos abadas em prol de toda a equipe. Detalhe: fazia em Salvador àquela hora em torno de 33 graus, com uma sensação térmica de bem uns 38 graus. Simplesmente insuportável. E pra piorar tudo no Aeroclube o nosso abada do Me Abraça está pessimamente cotado.
Após 1h 30min de negociações infrutíferas, naquela sauna ao ar livre, e vislumbrando o insucesso na missão, resolveram voltar ao hotel. No percurso de volta, receberam várias críticas por telefone do grupo que continuou no bem-bom do hotel, o que fez todos no carro, ensopados de suor, ficarem revoltados. Passaram o restante do caminho inteiro no táxi até o hotel reclamando de como os meninos do hotel eram folgados e individualistas.
Ao chegar no hotel, porém, a surpresa.... Vilaça Bufando de raiva, Gildo sem falar nada com ninguem, e nosso amigo Leozinho, um dos mais exaltados no carro minutos atrás, conversando com os meninos amigavelmente, fazendo um joguinho para parecer sempre o tranquilão. O que não foi perdoado por Gildo.
7
“Reunião de cúpula agora!! Todos os membros aqui”
O capitão Leozinho convocando todos para uma preleção do nosso grupo durante o camarote Salvador.
“Eu quero dizer que acho q Malvado e Gildo são, do nosso grupo, os que mais têm chance de ter sucesso aqui no camarote com as meninas. Por que estão numa pinça melhor que os demais”
Todos ficaram meio atônitos sem entender muito a lógica daquele comentário. Parecia até Xico em mais um de seus devaneios surrealistas. Com a interrogação expressa no rosto de cada um, Kaká se estimulou a continuar
“Vejam bem. Malvado está com um ar meio despojado à semelhança de Paulinho Vilhena e Gildo é forte e moreno com ar de playboy carioca. Nós pobrezinhos estamos lascados, Xico tem cara de matuto, Gilton parece um playboy paulista, Vilaça sua, e eu to muito branco e magro”
6
Mais uma do frasista Leozinho, dessa vez explicando como reconhecer as fases do splinteamento de Malvado:
Fase Inicial: Ele começa a se perder do grupo com facilidade
Fase Intermediária: Ele passa a não se preocupar com o estado do seu cabelo
Fase Crítica: Ele começa a cambalear lateralmente, no estilo "só no sapatinho", e a ficar em pé de modo instável
5
“Que porra é essa Leozinho”
Todos pensando ao mesmo tempo ao ver nosso amigo desfilando COM NATURALIDADE pelo quarto com uma de suas cuecas boxer das mais antigas, cuja eficiência do elástico já não era mais a mesma, o que associado com seus microroliços cambitinhos davam um aspecto um tanto grotesco àquela sua vestimenta e àquela cena
4
“Arabaiana (codinome baiano de Vilaça) se passar mais uma semana aqui, vai virar uma baiana e vender acarajé na praia”
Gildo ao ver Vilaça paramentado com praticamente todos os itens possíveis que se podem adquirir num percurso de trio elétrico. Malvado depois nos ensinou, com seu vocabulário sempre rico e preciso, que se tratavam de penduricalhos. Ao nosso amigo realmente só faltavam uma saia e um turbante de baiana, porque o resto ele já estava expondo, compunham em sua indumentária os seguintes acessórios: três lenços enrolados no braço, dois pares de algemas da Skol (isso mesmo, ele não se contentou com uma apenas), 8 colares de filho de Gandhi, 4 colares da Skol, um chapéu do cowboylino, uma camel bag nas costas, e um crachá do camarote da globo do galo da madrugada (????).
E nesse momento em que a frase foi proferida nosso amigo estava tentado conseguir seu quarto lenço...
3
Estávamos no camarote Salvador, precisamente na boate que ficava no quarto andar, o grupo inteiro reunido. Como ainda estava muito cedo (2:00 aproximadamente) resolvemos descer para ver os trios-eletricos passarem e só subir quando todos tivessem passado. Até aí nada demais. Só que pra chegar ao terceiro andar, era necessário descer uma escada, uma escada traiçoeira. Durante o carnaval, já tínhamos presenciado muitos caindo naquela escada. E toda vez que alguém escorrega numa escada eu me lembro de um show no Classic Hall em que eu mesmo caí umas cinco vezes, e não tem nada mais desagradável do que numa festa sair descendo quicando com a bunda uma escada até embaixo.
Com aquelas lembranças trágicas em minha mente fui liderando a fila do nosso grupo rumo ao terceiro andar. Ditava um ritmo cauteloso na descida, íamos em duas filas indianas, lado a lado, à esquerda estavam eu na frente, Leozinho e Malvado atrás; na fila da direita, um degrau acima, estavam Xico, Gilton e Vilaça, respectivamente. Imediatamente à nossa frente iam duas meninas também descendo lado a lado. Temendo presenciar a queda de alguma das duas bem a minha frente, resolvi alertá-las sobre o grande perigo que estavam correndo:
- Ei, tomem cuidado que essa escada é muito traiçoooooeeiii.....
Exatamente no instante em que terminava a minha frase, por trás de mim, ouço um estrondo: “Poww trreehggtttt” E antes de pudesse ver o que estava acontecendo, senti um misto de voadora assassina e de carrinho de futebol desleal (tipo com as travas da chuteira levantada), dois pés fortes como um míssil, em minha batata da perna. O impulso foi tão forte que fez minhas pernas irem para frente e para cima (em direção ao meu peito) com violência. Passei voando entre as meninas e fui cair de bunda, uns três degraus abaixo, e graças a uma certa vantagem anatômica familiar: quiquei! E o quique foi tão forte que fui parar já quase em pé mais uns três degraus abaixo numa velocidade tão grande que só me restou terminar a descida correndo.
Foi tudo tão rápido que ao chegar lá embaixo pude presenciar o que ainda estava acontecendo: Leozinho, ainda quicava escada abaixo, a mão esquerda tentando se segurar como podia no corrimão, e a direita segurando um copo que ele inconscientemente tentava salvar sua dose de Stolichnaya como podia, tudo em vão,já que estava voando vodka pra todos os lados.
Por trás dele, outro personagem fazia a outra leitura possível daquela cena, além da forma trágica como sentimos eu e Leozinho. Malvado com as mãos nos joelhos, tronco fletido, olhos marejados, ria e gargalhava sem parar...
2
Quarta-feira de cinzas. Todos bastante tristes e desolados pelo fim do tão aguardado carnaval. Mal sabíamos àquela altura que aquela aparente melancólica quarta-feira coroaria todo nosso carnaval com chave de ouro.
Um amigo de Vilaça tinha oferecido sua lancha para passearmos na orla de Salvador, e ele havia nos pedido pra nos encontrarmos com ele no píer da “Bahia Marina”. Ao chegarmos lá, deparamo-nos com uma bifurcação. Indecisos, fomos pedir, então, informação com um segurança quem encontrava-se bem a frente da tal bifurcação:
- “Ohh amigo, o píer é pra lá” Vilaça perguntando todo estabanado como qualquer pernambucano e apontando para um lado qualquer
“Depeeeenndeee. Teeemmmm ummmm píerrrr pra cá (apontando "calllmaaamnennte" pra um dos lados)........ e ouuuutro praa láaa" (apontando pra o outro lado). O segurança anônimo com a peculiar velocidade de falar e o jeito manso dos movimentos, típicos do baiano, que já estão nos dando saudades
1
A frase vencedora e a ainda recheada de mistérios foi proferida por um membro do bloco Crocodilo (bloco GLS de Daniela Mercury) para um de nossos amigos. O nosso amigo estava na pipoca, splinteado, sozinho, parado vendo o bloco passar. Suas feições delicadas, sua barba provocativa e o seu olhar sério e sexy (ou tudo isso junto) estavam fazendo o maior sucesso entre os integrantes do bloco, que passavam e ficavam ouriçados com tamanho sexy appeal. Um deles, no entanto, não conseguiu mais relutar em resistir e com dificuldade atravessou o bloco inteiro para se aproximar de nosso colega quando num movimento rápido levou a mão até o queixo de nosso amigo autista e falou:
“Coisa LINda!!!”
O que se sucedeu após isso é um verdadeiro enigma, e que inclusive os outros membros da equipe não se atreveram a tentar decifrar, de certa forma até com medo do que pudessem descobrir.
Um detalhe, porém, é bastante sugestivo: nosso amigo (cuja identidade foi preservada) chegou ao hotel com sua camisa do bloco vestida ao contrário de forma que os dizeres “me abraça”, talvez até matreiramente, estavam voltados para suas costas.
Um comentário:
Oi amigo seu blogger esta otimo vc sempre brilhante escreve muito bem bjus.
Postar um comentário