domingo, 1 de agosto de 2010

Três palavras


(tortura nunca mais)



Estou nu.

Em cima de uma cama e nu. Apenas umas finas vestes me cobrem.

Meus ossos todos doem. E muito.

Deveria ser culpa do frio. Mas para que esse frio todo?

Deve ser por isso que eu estou nu, alguém talvez quisesse que eu sentisse todo esse frio... talvez tenha sido volitivo, proposital.

Mas onde estou? Sinceramente não faço idéia....

Tento me levantar... não consigo: estou amarrado!!

Tento esquadrinhar melhor a minha volta, em busca de informações que possam diminuir minhas dúvidas. Só consigo fazê-lo com muito esforço, porque praticamente estou sendo obrigado a olhar fixamente para o teto. Uma brancura fria, sem vida, enfadonha, domina a minha visão. Após duas horas aquela visão persistente e inalterada passa tornar-se deprimente, após 24h passar a ser progressiva e paulatinamente mais agoniante, torturante.

Ah, será que é isso? Nu numa cama, amarrado, uma dor intensa e progressiva causada pelo intenso frio, e aquela visão desesperadora daquele branco sem fim do teto... Estaria sofrendo uma espécie de tortura?

Essa minha hipótese começava a se tornar mais verossímil quando percebo novos fatos.

Em cima da minha cabeça uma luz forte me ilumina. A principio poderia até passar despercebida. Decerto, não é a intensidade dela que incomoda, mas a sua inalterabilidade permanente. Está sempre lá, 24horas por dia. Fazendo você perder qualquer noção do que é dia e noite. Com certeza quem a colocou tinha o desejo de causar uma profunda confusão em mim. Aos poucos, você se vê completamente desorientado, desnorteado, o passar do tempo fica impossível de ser dimensionado, nem as horas, muito menos os dias. E essa incerteza com o passar dos dias causam uma complexa angustia em você.

Onde estou? O que estou fazendo ali? Para que aquele frio todo?

Para a minha alegria vejo pessoas a minha volta. Várias pessoas. Andando de um lado a outro. Por um momento sinto uma gostosa sensação de esperança revigorar. A minha alegria, porém, dura pouco. E prontamente transforma-se em medo, pânico. Todos a minha volta estão encapuzados. E me ignoram completamente. Tento me comunicar, tento falar com eles. Contudo, só então percebo que não consigo emitir nenhum som. Uma espécie de tubo em minha boca impede qualquer comunicação.

E como nada é tão ruim que não possa piorar. Ainda faltou mencionar a parte mais torturante dentre todas. O som do ambiente. Um ruído metálico, ingênuo, aparentemente inofensivo, começa a soar intermitentemente acima de mim. Seu som não é alto. Em contrapartida, sua permanência intermitente é enlouquecedora. E se não bastasse, outros sons diferentes ficam se alternando, se somando, agoniantes, torturantes.

Só então é que percebo tudo. Estava sendo realmente torturado! Tanto física quanto psicologicamente. Nu numa cama, com muito frio, uma luz inquietante sobre mim, sem conseguir falar nem me mexer, sons irritantes, e encapuzados a minha volta.... angustiado, confuso, apavorado...

... o que teria feito para merecer todo aquele calvário? Quem eram eles? O que eles queriam de mim? Por que não conversavam comigo?...

Meus devaneios são interrompidos quando um encapuzado subitamente se aproxima. Pra minha surpresa, ele está rindo. Fico atônito sem entender direito: não havia motivos para riso. Meu coração começa a acelerar, o medo aumenta. Então escuto em alto e bom som.

“não vai doer nada”

Quando olho pra sua mão, ele empunhava um instrumento que não o identifico muito bem. Aquela cena não parecia ser nada auspiciosa. Fico tenso. “Como assim não vai doer nada?! Já estava doendo... o medo intenso também dói”

De repente, sinto uma dor fina excruciante da minha própria carne sendo perfurada. A dor, porém, logo cessa..... passo alguns segundos eternos de apreensão, e logo a seguir ela, infelizmente, volta a se repetir. Lancinante. Sangue. Pânico. Meu coração acelera, meus olhos arregalam tentando se comunicar... o pavor decerto tornava aquela sensação muito mais desagradável. De repente, a dor volta a cessar. O encapuzado se afasta. Alívio... porém mais uma vez, minha alegria dura pouco. Ele não satisfeito com meu martírio, deu a volta na cama e foi postar-se ao lado do meu outro braço. Seu olhar era fixo, impassível, empedernido. O medo pela dor iminente começava a ser pior que ela própria. Meu coração que já acelerava, agora palpitava... e novamente a dor.... fina, mais intensa, persistente, rasgando minha carne e dilacerando minha alma, uma, duas, três vezes.

De repente, risos! Meu torturador sádico voltava a sorrir. “Consegui!” disse ele.

Eu apavorado, ele aliviado. Eu chorava, enquanto ele ria. Eu cada vez mais confuso, enquanto ele se afastava, sem explicações, mais uma vez de mim.

Sem ter tempo de recuperar daquele sofrimento. Observo três outros encapuzados se aproximando. Eles param ao meu lado. Não dizem nada. Provavelmente, algo grandioso estava por perto. Grandioso para eles, apavorante para mim. Seria esquartejado naquele momento? Ou eviscerado? Quanto será que um coração aguenta bater antes de literalmente explodir?

Sem falar nada, eles tiram as minhas únicas e finas vestimentas... expondo-me completamente naquele ambiente inóspito e de temperatura polar. Meu nervosismo aumenta, não saber o que aconteceria, causava um temor indescritível. De repente, sou colocado abruptamente de lado, o tubo em minha boca começava a dificultar minha respiração. Começava a ficar tonto, estava sufocando, um sono intenso me invadia. Seria uma morte lenta, dolorida, trágica. Enquanto sofria com a falta cada vez maior de oxigênio, meus carrascos, molhavam meu corpo com uma água gelada. No início não entendi o porquê. Quando a dor dos ossos aumentou sobremaneira que entendi como uma provável técnica chinesa de tortura. O sono aumentava, minha consciência diminuía, as dores atenuavam, estava ficando entorpecido, devido a provável morte iminente. Quando então sou novamente mudado de posição de volta a ficar com a imensidão do teto no meu campo visual. É quando a respiração volta a ficar mais fácil. O ar entra provocando um alívio delicioso. Com a volta da consciência, voltam também as dores e o medo.

Meus algozes então viram-me novamente, só que para o outro lado. Volto a respirar com dificuldade, quase não entra ar. São eternos segundos de sofrimento naquela respiração arquejante. Meus dedos da mão começavam a ficar arroxeados. O sono volta a bater. Restando-me poucos segundos de consciência, tento, naquela visão lateral, captar alguma informação do ambiente que possa me esclarecer alguma de minhas muitas dúvidas. Porém, para meu infortúnio, uma imensa cortina cobre todo o meu NOVO campo visual. Fico triste. O sono aumenta, começo a arquejar mais. E apenas quando estou prestes a desmaiar mais uma vez, talvez pela ultima vez, percebo no chão um grande balde. Nele há escrito com letras maiúsculas bem nítidas: três palavras. Mesmo com a vista embaçada, consigo lê-las claramente. E elas elucidam como que por mágica todo esse torturante mistério....


“UNIDADE TERAPIA INTENSIVA”

sábado, 24 de julho de 2010

O Véu pintado



Da palavra latina “patior” que significa SOFRER, derivou a palavra que todos conhecemos “PAIXÃO”

O despertar de uma paixão” é um filme de 2006, ambientado na década de 20 na China, e estrelado por Naomi Watts e Edward Norton.

Dr. Walter Fane (Norton) é um bacteriologista, pesquisador do governo inglês, que está PRESTES a ir morar na China. Ele, porém, passa por uma situação que, sem dúvida, TODOS NÓS já passamos, e a grande maioria AINDA SONHA PASSAR NOVAMENTE. Ele se apaixona perdidamente. Cataclismaticamente, abruptamente. AMOR À PRIMEIRA VISTA!! Nada mais romântico.

A sua flechada cupídinea acontece durante uma festa londrina, em que ele observa Kitty (Watts) descendo uma escada. Os traquejos, as feições faciais, a forma elegante de se locomover, fazem o Dr Fane, pronta e inexplicavelmente terem A APARENTE CERTEZA que ele havia encontrado quem ele tanto procurara. Assim mesmo, apenas ao vê-la descer a escada. Como se fosse um segundo mágico, miraculoso.

Como ele tinha pressa, devido a sua viagem iminente para a China: partiu para o ataque para tentar conquistar seu mais novo desejo.

Por outro lado, nossa protagonista, uma jovem inglesa superficial, egoísta e mimada não sentiu a mesma PAIXÃO arrebatadora. E mesmo sem haver uma mutualidade na PAIXÃO, aceita o casamento porque estava sendo pressionada pelos seus pais a casar-se.

Uma frase marcante do filme é a proferida por sua mãe nesse momento:

Por quanto tempo você ainda espera que te sustentemos

Pois é. Mulher custa caro mesmo. E como diz Xandinho do Aviões do Forró: “mulher é luxo. Só pra quem pode mesmo”. E para as ainda solteiras de plantão, quase “pra titia”, que ainda moram na casa dos pais, é uma preocupação AINDA presente, porém em proporção bem menor que em outras épocas. A preocupação de ainda estar sendo sustentada pelos próprios pais.

Mas enfim, eles se casam e vão a China. Num relacionamento fadado ao insucesso, pela não total reciprocidade da paixão. É tanto que logo Kitty termina ficando encantada por outro homem e se envolve numa intensa relação extraconjugal. Intensa, avassaladora. Ela estava completamente APAIXONADA. E isso justificou a traição para sua consciencia.

Mas eu pergunto a vocês: será que o relacionamento deles estava fadado ao insucesso mesmo? Se formos olhar pelos olhos da PAIXÃO decerto que sim. Mas por outro lado, vejam só: Dr Fane, era médico (mas poderia ser qualquer outra profissão que proporcionasse uma perspectiva de futuro financeiramente estável), responsável, bonito, carinhoso com a esposa, educado, que a amava absolutamente. Era uma pessoa CHEIA DE VIRTUDES.

O problema é todo esse: FICAR APAIXONADO e todos os sentimentos que o envolvem é uma das MELHORES sensações do mundo. TODOS aqui já passaram por isso. Ou não é? Tem sentimento melhor do que de repente se perceber com falta-de-ar, coração acelerado, ansioso, nervoso ao extremo, e, às vezes, apenas pela simples visão de outro se aproximando? TODOS aqui QUEREM passar por isso. Por dentro todo ser humano é igual: impaciente, sonhador, iludido... Só que os mecanismos responsáveis por deixar alguém nesse estado onírico ainda são cheios de misterios. Todos aqui conhecemos a bem-sucedida frase do filósofo Blaise Pascal que define muito bem essa situação: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Porém, aonde eu quero chegar é: Será que a maneira mais eficaz para se encontrar o parceiro DA SUA VIDA, é esse: Achar que ele vai aparecer na sua vida numa paixão avassaladora?

Ou NÃO É dessa maneira que a maioria das mulheres espera o seu príncipe encantado?

Voltando ao filme...

Dr Fane descobre as traições de sua esposa. O que seria suficiente para justificar um pedido de divórcio, e proporcioná-la uma destruição moral e social para a época. Mas, para a surpresa do filme, ele não dá nenhum piti e ainda planeja algo pior para ela. Ele aceita um emprego como médico, num vilarejo longiquo, paupérrimo, e violento da China, onde praticamente toda a população está morrendo de cólera. Tamanha pobreza, tamanha desgraça humana, além do risco inerente dela própria contrair a cólera, seria decerto uma punição bem mais severa para a “burguesinha” Kitty.

E é justamente no ambiente inóspito desse vilarejo que o filme começa de fato.

Vale ressaltar que ambos agiram motivados pela PAIXÃO. Ele quando a viu descendo a escada, invadido pela falsa certeza, e não medindo esforços para tê-la como esposa. E ela ao se aventurar numa relação extraconjugal sem futuro justamente porque não conseguia parar de pensar no amante.

Cada vez mais me convenço disso: quando você norteia suas escolhas da vida APENAS (apenas!) pelos olhos da PAIXÃO, as possibilidades de “dar merda” são muito grandes.

No ínicio da nova vida no vilarejo, Dr Fane não consegue superar o desprezo e a distância que a traição conjugal da esposa criou entre eles. Além de ao conviver mais com ela ter podido enfim conhecer a pessoa mesquinha que ela era. E ela se sente inútil naquele ambiente em que nada pode contribuir, e com o marido ignorando-a completamente.

Porém com o tempo as coisas começam a mudar. Por um lado, ela começa a ficar fascinada pelo o caráter e o trabalho abnegado do marido, e tenta aos poucos uma reaproximação, fazendo-o refletir sobre como o modo do ínicio do casamento foi errado. Casar sem conhecer a fundo a pessoa, suas verdadeiras qualidades sem supervalorizações, tampouco seus defeitos. Casar com a ilusão cruel do outro possuir qualidades inexistentes.

Numa dessas reflexões, Kitty, profere, para mim, A FRASE DO FILME:

“QUEM DISSE QUE A MULHER SE apaixona PELAS VIRTUDES DO OUTRO”

Não existe frase mais certa mesmo. Decerto, se apaixonar não é fruto de lógica matemática. Não é fruto de uma simples análise de virtudes e qualidades. Até seria bom, se fosse assim. Mas ninguém se apaixona porque ela é educada, veste-se bem e é fã dos Los Hermanos. Apaixona-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca; pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela forma como ela prende os cabelos, pela fragilidade que se revela quando menos se espera

A paixão simplesmente aparece e pronto, sem avisos prévios. Porém, UMA COISA É SE APAIXONAR E VIVER AQUELES SENTIMENTOS MÁGICOS, na maioria das vezes efêmeros. Por outro lado, É DESEJAR VIVER UM AMOR PRA VIDA TODA. Paixão sempre acaba, e isso SIM é uma certeza matemática. SEMPRE. Em algumas situações, ela acaba e dar lugar a um verdadeiro amor pra vida toda. Sem dúvida, essa é a forma de amor que todos que almejam construir uma sólida família, sonham em viver: começar com uma paixão avassaladora e terminar com um amor sereno, tranquilo, respeitoso, reconfortante.

Mas como todos sabemos, a maior parte das situações não é assim. O que vem depois que uma paixão acaba, na maioria das vezes são brigas, desrespeitos, confusões, indiferenças. Por isso, os inumeros namoros que começam e não dão certo.

As pessoas DECIDIDAMENTE não sabem escolher seus próprios parceiros.

... voltando ao filme...

Durante os difíceis momentos no pobre vilarejo, os dois ao se conhecerem melhor, qualidades e defeitos, terminam, vejam só, se amando loucamente. Daí o título em português “O despertar de uma paixão”, ao invés do título em inglês que destacava a traição do casamento.

Temos que concordar que esse amor dos dois ocorreu apenas por PURA SORTE! A esposa que só depois passou a se encantar com as virtudes já existentes do marido, e este que da mesma forma se apaixonou pela pessoa que ela mesma nem sabia ser, ao se descobrir com qualidades incríveis naquele ambiente inóspito
(daí a sorte).

Por isso, se você espera que se seu príncipe encantando venha na forma de uma paixão deliciosamente encantadora não se queixe depois se não der certo. Será mera questão de sorte o sucesso deste relacionamento.

Atente para o mais importante: taquicardia, palpitações, pensar no outro o dia inteiro sem parar como se fosse um TOC, não são os indícios mais fidedignos que ele é a pessoa certa para você. SEM DÚVIDA, podemos afirmar que NAQUELE MOMENTO não existirá pessoa que lhe fará MAIS FELIZ do que ele. Mas provavelmente uma felicidade passageira, enquanto durar a paixão.

Mas e afinal quais são os indícios mais fidedignos. Só existe uma pessoa que pode responder isso, você mesma. Só você sabe as coisas que mais procura no outro, assim como os defeitos que menos consegue tolerar. As qualidades que mais me atraem, particularmente, as deixei expostas no texto anterior. Mas um bom termômetro para saber se vai dar certo a relação, e isso serve para todos os casais, é analisar a qualidade da conversa entre vocês, se você não sente o tempo passar, se passaria horas conversando com a tal pessoa.

Por isso, NÂO SEJA BURRO, não se permita apaixonar-se por alguém que você pouco conhece. A chance de “dar merda” é alta.... depois você vai estar sofrendo, ILUDIDO, por um “amor” que nunca daria certo... e você se sentindo “mal-resolvido” por algo que nem vale a pena....

Tente inverter a ordem natural das coisas. Escolha a pessoa pelas virtudes, e só depois “pague pra ver” se surge uma paixão avassaladora daí....

E por isso o motivo real desse texto

....

Você não me causa mais palpitações, não me dá taquicardia. Falta de ar? Nem um pouquinho. (ta bom, ta bom, só um pouquinho) Não penso mais em você como antes, como um TOC, todo dia e o dia todo. E sem dúvida, sendo bem sincero (redundante falar isso), você não é a mais bonita, nem a mais inteligente, ou a mais simpática, tampouco a mais rica que eu já tive um relacionamento. Mas se sobressai pelo conjunto da obra (como você mesma falou e não deixou eu terminar a frase). A mistura onírica de suas várias qualidades a transformam numa pessoa deliciosamente peculiar e interessante. E ainda mais quando sob efeito de duas doses de vodka. Sem falar nas qualidades que eu mais gosto: seu bom-humor, e o prazer incrível de passar horas conversando contigo.

Airam adraude ed anecul ojuara....at an aroh ed somralup asse ariemirp esaf