
(tortura nunca mais)
Estou nu.
Em cima de uma cama e nu. Apenas umas finas vestes me cobrem.
Meus ossos todos doem. E muito.
Deveria ser culpa do frio. Mas para que esse frio todo?
Deve ser por isso que eu estou nu, alguém talvez quisesse que eu sentisse todo esse frio... talvez tenha sido volitivo, proposital.
Mas onde estou? Sinceramente não faço idéia....
Tento me levantar... não consigo: estou amarrado!!
Tento esquadrinhar melhor a minha volta, em busca de informações que possam diminuir minhas dúvidas. Só consigo fazê-lo com muito esforço, porque praticamente estou sendo obrigado a olhar fixamente para o teto. Uma brancura fria, sem vida, enfadonha, domina a minha visão. Após duas horas aquela visão persistente e inalterada passa tornar-se deprimente, após 24h passar a ser progressiva e paulatinamente mais agoniante, torturante.
Ah, será que é isso? Nu numa cama, amarrado, uma dor intensa e progressiva causada pelo intenso frio, e aquela visão desesperadora daquele branco sem fim do teto... Estaria sofrendo uma espécie de tortura?
Essa minha hipótese começava a se tornar mais verossímil quando percebo novos fatos.
Em cima da minha cabeça uma luz forte me ilumina. A principio poderia até passar despercebida. Decerto, não é a intensidade dela que incomoda, mas a sua inalterabilidade permanente. Está sempre lá, 24horas por dia. Fazendo você perder qualquer noção do que é dia e noite. Com certeza quem a colocou tinha o desejo de causar uma profunda confusão em mim. Aos poucos, você se vê completamente desorientado, desnorteado, o passar do tempo fica impossível de ser dimensionado, nem as horas, muito menos os dias. E essa incerteza com o passar dos dias causam uma complexa angustia em você.
Onde estou? O que estou fazendo ali? Para que aquele frio todo?
Para a minha alegria vejo pessoas a minha volta. Várias pessoas. Andando de um lado a outro. Por um momento sinto uma gostosa sensação de esperança revigorar. A minha alegria, porém, dura pouco. E prontamente transforma-se em medo, pânico. Todos a minha volta estão encapuzados. E me ignoram completamente. Tento me comunicar, tento falar com eles. Contudo, só então percebo que não consigo emitir nenhum som. Uma espécie de tubo em minha boca impede qualquer comunicação.
E como nada é tão ruim que não possa piorar. Ainda faltou mencionar a parte mais torturante dentre todas. O som do ambiente. Um ruído metálico, ingênuo, aparentemente inofensivo, começa a soar intermitentemente acima de mim. Seu som não é alto. Em contrapartida, sua permanência intermitente é enlouquecedora. E se não bastasse, outros sons diferentes ficam se alternando, se somando, agoniantes, torturantes.
Só então é que percebo tudo. Estava sendo realmente torturado! Tanto física quanto psicologicamente. Nu numa cama, com muito frio, uma luz inquietante sobre mim, sem conseguir falar nem me mexer, sons irritantes, e encapuzados a minha volta.... angustiado, confuso, apavorado...
... o que teria feito para merecer todo aquele calvário? Quem eram eles? O que eles queriam de mim? Por que não conversavam comigo?...
Meus devaneios são interrompidos quando um encapuzado subitamente se aproxima. Pra minha surpresa, ele está rindo. Fico atônito sem entender direito: não havia motivos para riso. Meu coração começa a acelerar, o medo aumenta. Então escuto em alto e bom som.
“não vai doer nada”
Quando olho pra sua mão, ele empunhava um instrumento que não o identifico muito bem. Aquela cena não parecia ser nada auspiciosa. Fico tenso. “Como assim não vai doer nada?! Já estava doendo... o medo intenso também dói”
De repente, sinto uma dor fina excruciante da minha própria carne sendo perfurada. A dor, porém, logo cessa..... passo alguns segundos eternos de apreensão, e logo a seguir ela, infelizmente, volta a se repetir. Lancinante. Sangue. Pânico. Meu coração acelera, meus olhos arregalam tentando se comunicar... o pavor decerto tornava aquela sensação muito mais desagradável. De repente, a dor volta a cessar. O encapuzado se afasta. Alívio... porém mais uma vez, minha alegria dura pouco. Ele não satisfeito com meu martírio, deu a volta na cama e foi postar-se ao lado do meu outro braço. Seu olhar era fixo, impassível, empedernido. O medo pela dor iminente começava a ser pior que ela própria. Meu coração que já acelerava, agora palpitava... e novamente a dor.... fina, mais intensa, persistente, rasgando minha carne e dilacerando minha alma, uma, duas, três vezes.
De repente, risos! Meu torturador sádico voltava a sorrir. “Consegui!” disse ele.
Eu apavorado, ele aliviado. Eu chorava, enquanto ele ria. Eu cada vez mais confuso, enquanto ele se afastava, sem explicações, mais uma vez de mim.
Sem ter tempo de recuperar daquele sofrimento. Observo três outros encapuzados se aproximando. Eles param ao meu lado. Não dizem nada. Provavelmente, algo grandioso estava por perto. Grandioso para eles, apavorante para mim. Seria esquartejado naquele momento? Ou eviscerado? Quanto será que um coração aguenta bater antes de literalmente explodir?
Sem falar nada, eles tiram as minhas únicas e finas vestimentas... expondo-me completamente naquele ambiente inóspito e de temperatura polar. Meu nervosismo aumenta, não saber o que aconteceria, causava um temor indescritível. De repente, sou colocado abruptamente de lado, o tubo em minha boca começava a dificultar minha respiração. Começava a ficar tonto, estava sufocando, um sono intenso me invadia. Seria uma morte lenta, dolorida, trágica. Enquanto sofria com a falta cada vez maior de oxigênio, meus carrascos, molhavam meu corpo com uma água gelada. No início não entendi o porquê. Quando a dor dos ossos aumentou sobremaneira que entendi como uma provável técnica chinesa de tortura. O sono aumentava, minha consciência diminuía, as dores atenuavam, estava ficando entorpecido, devido a provável morte iminente. Quando então sou novamente mudado de posição de volta a ficar com a imensidão do teto no meu campo visual. É quando a respiração volta a ficar mais fácil. O ar entra provocando um alívio delicioso. Com a volta da consciência, voltam também as dores e o medo.
Meus algozes então viram-me novamente, só que para o outro lado. Volto a respirar com dificuldade, quase não entra ar. São eternos segundos de sofrimento naquela respiração arquejante. Meus dedos da mão começavam a ficar arroxeados. O sono volta a bater. Restando-me poucos segundos de consciência, tento, naquela visão lateral, captar alguma informação do ambiente que possa me esclarecer alguma de minhas muitas dúvidas. Porém, para meu infortúnio, uma imensa cortina cobre todo o meu NOVO campo visual. Fico triste. O sono aumenta, começo a arquejar mais. E apenas quando estou prestes a desmaiar mais uma vez, talvez pela ultima vez, percebo no chão um grande balde. Nele há escrito com letras maiúsculas bem nítidas: três palavras. Mesmo com a vista embaçada, consigo lê-las claramente. E elas elucidam como que por mágica todo esse torturante mistério....

