terça-feira, 30 de outubro de 2007

Cof, cof, cof e o Hahahaha



Cof, cof, cof. Argrgrgrgr. Cof, cof, cof. Sangue.

Estava caquético. Vivia solitário à penúria numa pobre cidade ao norte da Colômbia – Santa Marta. Tossia sem parar. A face suava. Sentia frio, fazia calor. Nem de longe lembrava a compleição vigorante de anos atrás. O espírito idem... Outro acesso de tosse. Nova expectoração com sangue, dessa vez mais intensa. Um fim melancólico marcava com ironia seu crepúsculo; logo ele, com tantas vitórias em sua biografia. Havia libertado cinco países sul-americanos do domínio espanhol (Venezuela, Colômbia, Bolívia, Peru e Equador), mas a essa altura seus pulmões deviam representar um desarranjo estrutural tão caótico que respirar passava a ser uma ação unicamente voluntária, e por vezes dolorosa. Nesse estado deplorável, após mais um acesso de tosse proferiu a frase que marcou o dia da sua morte. 17 de dezembro de 1830. A frase:

“A única coisa a se fazer na America Latina é emigrar”

Será que eu também estou morrendo de tuberculose. Talvez seja prudente se afastarem de mim. Não quero tossir bacilos de Koch em vocês. Mas é isso mesmo, tenho que encarar os fatos: não estou tossindo, tampouco caquético, muito menos venho perdendo peso... Realmente meu físico em nada se assemelha ao de Simon Bolívar em seus últimos momentos. O físico não. Mas espiritualmente a cada dia mais me aproximo do dele e me convenço que realmente “a única coisa a se fazer na America Latina é emigrar”.

A violência se banalizou. Está em todos os lugares, não mais na periferia, e como bem disse meu amigo Alexandre: “virou moda”.

E o pior nem mais nos importamos com ela. Nada é pior do que se descobrir indiferente às más notícias que saem diariamente nos jornais. Acostumamos-nos, tristemente.

Ela desvirtuou tanto nosso discernimento, que vibramos com a tortura e os excessos do filme Tropa de Elite.

Ademais, pagamos uma carga tributária arquejante. Só na Turquia o fardo é maior. São 27,5% de IR, 11% de INSS, CPMF, ICMS, IPVA, IPTU.... e a lista simplesmente não tem fim. E eles rindo. Bebendo vinho, fumando charutos, freqüentando prostíbulos, nos tratando como putas (e das mal pagas), trabalhando só três dias por semana, e ganhando, só para falar em relação aos deputados federais, 150 mil reais por mês (incluindo todas as suas regalias “legais”). São os mais caros do mundo. Somos, talvez, ricos e nem saibamos por manter com "luxo" esse lixo moral.

Fora que todos os produtos que compramos, dos chinelos aos carros, 40% dos seus preços, em média, são só de impostos. Quer comprar uma geladeira? Metade do preço dela é imposto que você vai pagar. Quer comprar feijão? Idem. Ou seja, além de todos aqueles impostos escancarados ainda pagamos vários ocultos em qualquer coisa que compramos.

Assim, somos ricos, porque pagamos impostos triplicados. Os públicos duas vezes (os escancarados e os ocultos) que são ineficientes, e pela terceira vez alguns privados pra remendar. Sejam escolas particulares para os filhos, planos de saúde para os pais, seguro para o carro – isso quando não o blindamos, previdência privada para o futuro.

E eles rindo.

E nós nos influenciando pessimamente. Já não temos bons costumes enraizados mesmo. Como, por exemplo, atitudes corriqueiras e algumas vezes cheias de hipocrisia que ajudam os criminosos. Como ficou evidente no filme citado acima.

Mas também são praticas condenáveis todas as que formam o “jeitinho brasileiro”, que permite uma convivência promíscua entre o legal e o ilegal. Seja desde besteiras como furar o semáforo vermelho, a colocar macacos pra roubar a luz dos vizinhos, até a querer se dar bem colocando água oxigenada no leite das crianças. Assim como àquelas atitudes famigeradas “feitas sistematicamente” no Brasil, dos desvios de dinheiro público, dos caixas-dois, dos superfaturamentos...

E o menino que mora na favela vai se espelhar em quem? Quem ele vai querer ser quando crescer? Ora, em quem? No dono da favela, em quem mais?! Veja bem ele é respeitado por todos, cobiçado por todas as meninas, só anda com trancelim de ouro, carro da hora.... assim como nós nem estamos percebendo como aos pouquinhos a desonestidade cada vez mais vai se incorporando ao nosso caráter. Lógico. Lula e Cia nos ensinam, que não adianta estudar, que o crime compensa sim, que somos Phd em impunidade, que afirmar ter ignorância em não saber do que acontece até responsabilidades que eram inerentemente suas. E nós? Quem vamos "querer ser quando crescer"??

Pensando bem, eles têm que rir mesmo.

Se bem que talvez eu só vá rir mesmo, quando muito longe daqui estiver. Quero fugir logo e interromper precoemente essa pos-graduação em desonestidade a que todos somos submetidos diariamente. Antes que seja tarde demais.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

É frevo, é frevo, é frevo!



"Mandou me chamar, eu vou
Prá Recife festejar
Alegria no olhar eu vejo
É frevo, é frevo, é frevo!"



Pra quem ainda não sabe a Escola de Samba Mangueira vai homenagear minha cidade, Recife, no carnaval de 2008 com o enredo:

"100 anos de frevo, é de perder o sapato.
Recife mandou me chamar....."

E ontem a noite foi decidido o samba-enredo oficial do desfile. Foram 4 candidatos e o vencedor foi:

Ao som de clarins
Descendo a ladeira
Sou Mangueira
Tem frevo no samba
Deu nó na madeira
Orgulho da cultura brasileira
A majestade é o povo,
Sem o povo história não há
Estende o brasão, reflete o leão,
Símbolo de garra e união

Capoeira invade os salões
Mascarados, despertam Dragões
E pelas ruas, vem Zé Pereira,
Arrastando a multidão

Nascia o frevo contagiando toda a massa
E até hoje tem colombina e seus amores
Passo no bloco das flores
O profano é sagrado no maracatu
Nos cem anos de história, desperto a alvorada
Brincando no Galo da Madrugada
Invade a cabeça, o corpo, embala os pés
Delírio da massa, um fervo!
É a Mangueira no passo do frevo
Voltei de sombrinha na mão
Sonhando em gritar é campeã.

Mandou me chamar, eu vou
Prá Recife festejar
Alegria no olhar eu vejo
É frevo, é frevo, é frevo!

(Compositores: Lequinho, Jr. Fionda,
Francisco do Pagode, Silvão e Aníbal )

E A BATERIA DA MANGUEIRA, EM JANEIRO, ESTARÁ POR AQUI NO CARVALHEIRA. A DATA AINDA FALTA CONFIRMAR. ATÉ LÁ, VAMOS DECORANDO

sábado, 20 de outubro de 2007

Ó Raios!


Há alguns anos, no fim de 2003, um discurso musicado ficou famoso no Brasil na voz de Pedro Bial. “Filtro solar” o qual pode ser visto ainda em www.youtube.com/watch?v=eJ2_hyEHAMo. Você deve lembrar muito bem dele, ele começava assim:

“Senhoras e senhores da turma de 2003.
Filtro solar.
Nunca deixem de usar filtro solar.
Se eu pudesse dar só uma dica sobre o futuro seria esta:
"use filtro solar"!
Os benefícios a longo prazo do uso do filtro solar estão provados e comprovados pela ciência! Já o resto de meus conselhos não tem outra base confiável além de minha própria experiência errante...”

O que muita gente não sabe é que ele foi apenas traduzido por Pedro Bial, o texto original foi publicado no jornal americano Chicago Tribune, numa crônica da colunista Mary Schmich, em 1º de junho de 1997 e entitulada por “Advice, like youth, probably just wasted on the young”.

Tudo bem, esses detalhes não são fundamentais para o propósito deste meu texto.

Como o dia 18 de outubro é considerado o dia de São Lucas e, por conseguinte, o Dia do Médico, resolvi trazer o caso de uma paciente minha que pode não só lhe interessar como também ser a prova materializada da crônica da senhora Schmich.

O caso é bem simples. Trata-se de uma idosa bem meiguinha chamada Severina. Uma idosa octogenária, agricultora aposentada, 15 filhos. Mas justamente o que eu quero destacar nesse caso, a foto dela lá em cima já o faz suficientemente bem. Na verdade, talvez essa foto não seja a que represente melhor o poder deletério e crônico dos raios UV sobre nossa pele. A foto a seguir deve ser melhor.

Nessa foto eu precisei intervir ao deslocar ao mesmo tempo a manga um pouco pra cima e a gola da blusa para fora, aproximando uma ao encontro da outra. O intuito era deixar amostra outra parte da pele da paciente. Assim poderemos comparar sua pele em duas situações: a primeira, por exemplo, a pele do antebraço a qual por ter estado sempre mais exposta aos raios solares tornou-se paulatinamente mais enrugada e grossa; e com a MESMA pele só que a do ombro a qual por ter estado protegida pelo tecido conseguiu preservar sua maciez e aprazibilidade, mesmo após 80 anos de vida!

Isso é tão evidente que no pescoço, por exemplo, há a marca enrugada em V causada pelos raios solares na pele sem a proteção da gola da camisa. Veja as setas menores.

Não vá concluir que estou fazendo apologia para utilização generalizada da burca afegã. Ao contrário, apenas estou ratificando o conselho da senhora Schmich quanto à importância do uso do filtro solar.

Talvez essa foto da minha paciente suscite, na verdade, que o uso do filtro solar não deveria se resumir às situações mais agressivas como as idas à praia eventuais, mas ao uso corriqueiro habitual.

E cumpre lembrar que a pele de Severina não ficou tão pregueada da noite pra o dia, se tivesse ocorrido assim, com certeza ela teria se precavido melhor, mas como essa lesão ocorreu gradativamente um pouco por dia ela nem deve ter percebido sua lenta transfiguração com o passar dos anos. Da mesma forma que já pode estar acontecendo, agora mesmo, com a pele de cada um de nós....

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

A formiga, a ovelhinha e os lilliputianos.




Essencialmente pra refletir... e quem sabe aprender um pouco sobre humildade.

Restringir nossa atenção aos assuntos terrestres seria limitar o espírito humano."

(Stephen Hawking)



Procure uma formiga. Qualquer uma, contanto que a ache rápido. Olhe a sua volta. Vá! Agora!

Caso não haja nenhuma por perto, tudo bem, mas lembre-se de procurá-la após ler esse texto. Quando a encontrar observe cuidadosamente a evolução sossegada de seu lento deslocamento...

Você nunca deve ter parado pra pensar, mas ela nessa caminhada não está só. Ao contrário, junto ao seu corpo leva alguns bilhões de outros seres: bactérias e vírus, de todo tipo.

Volte a olhar a formiga, mas com essa nova percepção...

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Toscanejava refestelando-me num confortável espaldar quando a voz de Pedro Bial me fez despertar. Estava passando o Fantástico e a voz dizia: “Demoraram 14 dias pra que a notícia da morte de Abraham Lincoln, em abril de 1865, chegasse à Europa”. Na verdade, o que me fez despertar não foi essa informação em si. Mas um contraste de informações. De duas, na verdade.

A primeira. Como falei acima: os 14 dias! Imediatamente entrei na internet e descobri que até àquela época as informações só conseguiam atravessar o Atlântico em navios e 14 dias era justamente a duração da viagem marítima dos EUA ao velho continente. Os aviões, cumpre lembrar, só foram inventados em em 1906 e mensagens transmitidas à distância apenas tiveram início com os telégrafos na II Guerra.

A segunda. No mesmo domingo, só que mais cedo: à tarde. Estava navegando na página inicial do meu browser, a globo.com, quando uma atualização automática me surpreendeu pela agilidade da notícia: “Uma ponte cai no Paquistão...”, ao ler a reportagem fiquei sabendo que ela havia caído há MENOS DE UMA HORA, e o mais surpreendente era que já estavam disponíveis fotos nítidas de seus escombros. Uma hora, apenas! Sem falar que o local era, ainda, o Paquistão. Se fosse há alguns anos provavelmente nem saberia onde ficaria o Paquistão, muito menos o que estaria acontecendo por lá. Ainda menos de forma tão rápida.

Realmente é chocante. Há apenas cem anos era necessário um navio pra levar as noticias intercontinentais; atualmente, contudo, temos à disposição notícias em tempo quase real e, ainda, englobando locais quase remotos e inacessíveis. Uma diferença tão brutal, e em apenas 100 anos. Com esse contraste cheguei a uma das conclusões mais importantes em minha vida, a saber: vida inteligente evolui muito rápido!

Tentarei discriminar melhor o que eu quero dizer.

O universo “surgiu” com o big bang há cerca de 15 bilhões de anos; há 5 bilhões, a Terra. A existência de vida por aqui começou a se desenvolver há 3,8 bi com as evidências de fósseis microscópicos de bactéria e algas rudimentares. Pela grande complexidade de NOSSA ESPÉCIE o Homo sapiens sapiens só surgiu há apenas 125.000 anos; e agrupadas em civilizações só há 10.000 anos, com o fim da última era glacial. A partir daí algo assustador nos é revelado: nossa característica mais marcante. Uma capacidade extraordinária em evoluir. E muito rápido.

Você vai precisar mudar seus paradigmas, seus parâmetros, pra entender melhor o que eu quero dizer. Veja bem. Você tem entre 1,5 a 2 metros de altura, se locomove numa velocidade baixíssima além de ter uma expectativa de vida pífia na média dos 70 anos. E todas as medidas que fogem muito desses parâmetros nosso cérebro demonstra uma profunda limitação em nos fazer entender. Por exemplo, quando eu falo APENAS para os 125.000 anos de existência da nossa espécie, baseio-me nos parâmetros universais, para os quais 125 mil anos não são nada; em contrapartida para os parâmetros humanos (vida média 70 anos) é um período de tempo tão grande que por mais que forcemos nosso cérebro, ele é limitado em nos dar uma idéia dessa dimensão.

Talvez fique mais claro assim: quanto oito horas representam na vida de uma pessoa que viveu 100 anos? Praticamente uma noite de sono, o que é totalmente desprezível. Pois é a mesma proporção de 125 mil anos pra um universo que tem 15 bilhões.

Vamos observar laconicamente a evolução da vida inteligente terrestre.

Antes da escrita, na Pré-história, tivemos dois momentos: O PALEOLÍTICO (entre 2 milhões - 10mil a.C) e o NEOLITICO (entre 10mil - 4mil a.C). No primeiro passamos a dominar o fogo e a usar corriqueiramente utensílios de pedra. Éramos nômades e vivíamos em cavernas até que se esgotassem os alimentos. No segundo, surgem a domesticação de animais e a agricultura; e com estas, a moradia fixa em aldeias próximas a rios. E apenas agrupados em sociedades deu-se início ao avanço cultural e ao aumento populacional. E tudo isto se intensificou sobremaneira com...

O surgimento da escrita e, então, possibilita o primeiro grande salto no desenvolvimento, porquanto permite o armazenamento e a propagação de informações não só entre indivíduos, mas também por gerações. Ou seja, as gerações seguintes não precisavam “começar” culturalmente do zero, agora havia o legado registrado das anteriores.

A partir daí não serão mais preciso milhares de anos para se perceber mudanças importantes, mas agora em algumas centenas de anos já serão percebidos mudanças assustadoras. E com o passar do tempo, esse padrão se mantém: substanciais mudanças populacionais vão ser observadas em períodos de tempo cada vez menores.

Viajando por nosso passado, percebemos fatos curiosos nas várias etapas da construção de nosso conhecimento. Como tivemos momentos no passado em que, míopes pela ignorância, acreditamos cegamente em muitas BABOSEIRAS para o conhecimento dos dias de hoje. Da mesma forma que no futuro irão rir das coisas em que acreditamos hoje cegamente, que nem sabemos ainda ser grotescas.

Tudo isso porque aprendemos desde sempre que somos inteligentes. E nunca aprendemos a lidar com situações onde nossa ignorância está evidente. Nunca. Para diminuí-la sempre preferimos nos aventurar em explicar tudo. E sempre acreditamos cegamente nessas explicações. Fica mais confortável ser assim, dá menos medo do desconhecido. Em contrapartida, entretanto, tornamo-nos pedantes e prepotentes muitas vezes diante do que não compreendíamos bem e tentamos explicar. Por exemplo, tem coisa mais incoerente e inverossímil que acreditar em Deus, em vida após a morte, ou em tantas outras baboseiras que acreditamos hoje? Ou melhor, acreditar nessas coisas apenas com as refutáveis informações que dispusemos?

Exemplifico mais.

Há dois mil anos tinha-se absoluta certeza que a terra era o centro do universo, era vigente o geocentrismo de Ptolomeu. Além disso, a Terra era considerada plana como um campo de futebol e – pasmem – acreditava-se estar sustentada nos ombros do Titã Atlas, e este em incontáveis cascos de tartarugas um em cima do outro. Se andássemos em linha reta, uma hora cairíamos num abismo sem fim. Isso há ínfimos dois mil anos. E foi nossa crença por 14 a 15 séculos! Em parte porque a igreja nos obrigava a pensar assim.

Só há quase 500 anos se passou a crer no heliocentrismo de Copérnico, uma 3 maiores revoluções culturais já experimentadas pelo homem. Realmente causou uma revolução. Era o tempo das navegações, e com essa teoria uma rota alternativa para as Índias passava a ser idealizada: a circunavegação. Mas convenhamos, fugia um pouco ao bom-senso a idéia que navegando em direção poente se chegaria ao nascente. E simplesmente ninguém suspeitava que ao invés de terríveis monstros no meio desse caminho existisse um imenso continente se estendendo de norte a sul. O mundo era cheio de surpresas mesmo.

Sua aceitação foi tão difícil que ainda em 17 de fevereiro de 1600 o filósofo Giordano Bruno foi queimado na fogueira por defendê-la, 100 após o Brasil ter sido descoberto.

Nessa mesma época, há um marco para a medicina: o ano de 1543, com a publicação do livro Fabrica por Andreas Vesalius. Nele é descrito com precisão toda a anatomia do corpo humano. Mesmo sem grandes descobertas, no entanto, é um marco por ter sido o único em 14 séculos a criticar e apontar os erros evidentes dos ensinamentos anatômicos de Galeno, o qual a igreja exigia que fosse considerado dogmático. Provocou, em stricto sensu, uma reviravolta na medicina fazendo-a acordar de um profundo sono letárgico diuturno.

Em lato sensu, no entanto, causou um frenesi, um imenso salto no conhecimento como um todo, até então sem precedentes. Sobretudo no que concerne à postura do homem pesquisador. Criou-se um clima em que todos os estudiosos renascentistas queriam medir, comparar, dissecar, desenhar, cheirar, elaborar novas teorias e se aventurar para além das fronteiras do conhecimento onde seus antepassados não ousaram.

A vida inteligente pela primeira vez passou a ser estimulada a demonstrar todo seu potencial.

A partir desse ponto as grandes mudanças sócio-culturais seriam perpetradas não mais em centenas de anos, mas agora em algumas dezenas anos. Foram tantas que seria impossível relatá-las aqui.

Cumpre destacar, por conseguinte, algumas mais marcantes: a circulação do sangue (1628), as bactérias (1676), a anestesia (1846), a anti-sepsia (1867), o telefone (1876), o rádio (1896), a televisão (1924), a penicilina – primeiro antibiótico (1929), o computador e o DNA (1945), a pílula anticoncepcional (1952), o satélite (1957), internet (1969), et coetera.

Em especial as outras duas maiores revoluções culturais. E bem recentes. Dois livros bombásticos, sísmicos, verdadeiros epicentros que chacoalharam o mundo. Em 1859 – A origem das espécies – de Charles Darwin, foi responsável pela revolução mais cataclismática até hoje. Não era pra menos, já que com argumentos irrefutáveis introduzia a idéia de que homens e macacos evoluíram a partir de um ancestral comum e não como mero fruto da criação divina. Ainda hoje ela não é totalmente aceita, há escolas que optam por ensinar o criacionismo. O segundo. Em 1899 – A interpretação dos sonhos – de Sigmund Freud que deu ao termo inconsciente um status científico, além de ter dividido nossa mente em camadas (o ego, o id e o superego), que era dominada em certa medida por vontades primitivas, escondidas sob a consciência, e que se manifestavam nos lapsos e nos sonhos.



Em cada um dos momentos desse processo evolutivo, seja há 10, há 100 ou há mil anos, outra característica inerente nossa sempre se fez presente: a da auto-exaltação, do egocentrismo desvairado. Por exemplo, recentemente um dos cientistas mais respeitados do século XIX, Thomas Edison (foto ao lado) “profetizava” em 1891: "Muito pouco ainda falta para ser inventado". E todos à época pensavam assim. Eles estavam maravilhados com a locomotiva, a fotografia, o transatlântico, o telégrafo, etc; e olhe que ainda nem existiam carros, aviões, televisões, prédios. Recentemente um amigo meu, Fred, proferiu frase semelhante após refletir sobre as novas maravilhas contemporâneas: “o que ainda falta ser inventado?” Não nos surpreendamos, somos prepotentes mesmo.

Você já imaginou como vivíamos há 2000 anos? Não existia absolutamente nada, apenas vamos dizer assim ovelhinha pra lá, ovelhinha pra cá... Ovelhinha pra lá, ovelhinha pra cá. E há apenas 100 anos? Sem prédios, sem ruas asfaltadas, sem carros, sem aviões, só cavalos e carruagens, muitas vezes lembrando cenários de faroestes? Éramos no planeta aproximadamente 1,6 bilhões de pessoas com vida média de 34 anos (!), hoje só na China em 2020 estima-se que terá essa população, quando o mundo já terá 8 bilhões de pessoas. E "ontem" há 15 anos? Sem DVD, Mp3, iPod, máquinas e celulares digitais, sem internet rápida e englobando a quase tudo? Como vivíamos sem essas coisas?

Enfim, num período de tempo desprezível para os paradigmas universais demonstramos uma capacidade espantosa em evoluir e nos organizar socialmente em populações cada vez maiores e mais complexas. E o ritmo só tem aumentado... ao ponto que algumas estimativas são curiosas: atualmente o conhecimento humano dobra a cada oito anos. E que, por exemplo, uma criança que nascer hoje quando ela tiver 50 anos 97% de tudo o que se saberá no mundo terá sido aprendido desde que ela nasceu. Hoje as grandes mudanças já ocorrem EM ANOS, logo logo ocorrerá em meses.

E lembre-se 100 anos para a idade do universo, seria aproximadamente irrisórios 15 segundos na vida de alguém que viveu 100 anos. Tem beijo de boca que demora mais, por exemplo.

Mas e a formiga?

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Uma questão que todos já se perguntaram é a respeito da vida extraterrestre. Mas, ora, pra se saber da existência de vida fora da Terra, ou da inexistência dela, seria necessário averiguar em todos os possíveis locais do universo onde possa ter se desenvolvido vida. Como em outros planetas, por exemplo. Por isso, eu pergunto: quantos planetas você conhece fora do sistema solar? Quantos?? Nenhumzinho?

Então como podemos discutir esse assunto se nem sabemos o básico? Ou iremos criar novas baboseiras? Não seria melhor nos conformarmos com a insignificância de nosso atual conhecimento? Seria. Mas mesmo assim, podemos confabular algumas hipóteses.



Antes uma breve explicação. A Terra é um dos oito planetas que orbitam ao redor da estrela Sol. E o Sol é APENAS UMA dentre cerca de duzentos bilhões de outras estrelas presentes em nossa galáxia – a via-láctea. E nossa galáxia é uma dentre inúmeras galáxias que compõem o universo. Espero que você não tenha se perdido nessa seqüência, mas com certeza você se perderia caso falasse a respeito das dimensões de tudo isso acima. Não me atreverei.

Será que apenas na nossa estrela, dentre outras 200 bilhões, existe planetas ao redor? Essa é uma pergunta capital e até 1992 não se sabia respondê-la. E por quê? Mesmo com nossos telescópios bem potentes? Por um motivo simples, ao vermos a luz de qualquer estrela, ela ofusca tudo a sua volta, impedindo a visualização de qualquer planeta que porventura a estivesse orbitando. Parece justificativa pra criança, mas é isso que a NASA nos explica.

A partir de 1992, no entanto, por MÉTODOS INDIRETOS ela passou a ser respondida. Hoje se sabe que na verdade incontáveis planetas existem orbitando outras estrelas de nossa galáxia. Nas estrelas das outras galáxias deve ocorrer o mesmo também. E até o dia 1 de outubro de 2007 já foram catalogados 248 outros planetas extra-solares. Têm por enquanto nomes técnicos, a saber: HD12661c, HD37124c, 70 Vir, GJ876b, etc. E a lista não pára de crescer. E por que você não sabia disso? Justamente porque a foto de nenhum deles, como expliquei, está disponível. Ou seja, não conseguimos nem tirar fotos de planetas extra-solares, saber se há vida neles muito menos ainda. Veja como nesse aspecto – do conhecimento de nossa vizinhança – estamos na melhor das auto-avaliações apenas engatinhando. E ainda tem gente que fica maravilhado quando sai alguma nova foto tirada pelo Hubble...

A lista destes planetas é constantemente atualizada no site na NASA a seguir:
http://planetquest1.jpl.nasa.gov/atlas/atlas_index.cfm

Falei que não iria me aventurar sobre as dimensões universais. Mas conhecê-las é fundamental para tornarmo-nos pessoas mais humildes, apreciando toda nossa insignificância, e assim descobrindo que nossa inerente prepotência não tem muito propósito de existir.

Poderia começar assim: a Terra tem 12 mil km de diâmetro contra 90 mil anos-luz (cada ano-luz tem 9,5 trilhões de km) de diâmetro da via-láctea, mas seria mal-sucedido em meu objetivo, pois infelizmente nosso cérebro não consegue dimensionar essa tamanha desproporção. Por isso preciso de outra analogia, e é aí que entra a formiga. Ela e suas bactérias.

Imagine o quanto nosso planeta é – infinitamente – maior quando comparado com o tamanho da formiga. Infinitamente. Imagine. Pois nossa galáxia guarda a mesma proporção em relação ao nosso planeta. Ela é tão infinitamente maior que a Terra, quanto esta o é quando comparada com a formiga. Assim a analogia seria: nós seríamos as bactérias da formiga, a formiga, então, representaria a Terra e todo o planeta de fato seria a Via-láctea.

E você, caro leitor, imagine-se por um momento como um ET. Você agora não é mais o leitor que vê a formiga, mas um ET que vê a Terra de fora. Imagine suas bactérias e pense serem nós seres humanos. E quando você for dar uma volta pela via-láctea (ao sair de casa, por exemplo, e ir trabalhar, ou viajar) no caminho você vai perceber toda a insignificância da Terra (a formiguinha que ficou na sua casa) pela tamanha desproporção entre ela e todo seu caminho percorrido. É uma comparação um tanto grotesca, mas que dimensiona bem nossa inefável miudeza.

Talvez assim você compreenda porque é difícil para as bactérias na formiga da sua casa tenta descobrir outras bactérias vivas na formiga que você encontrou no seu trabalho, por exemplo.

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Tenho medo.

Algo me amedronta. O fato do pouco tempo em que precisamos pra chegar ao nosso nível evolutivo atual. E por que me amedronta? Simples. Pensem comigo. Caso exista VIDA INTELIGENTE EXTRATERRESTRE com certeza ela deve estar noutro patamar bem diferente: infinitamente inferior ou infinitamente superior a nós.

Ou seja, por outras palavras eu confesso: morro de medo de ET. Na verdade da imensa superioridade que eles já possam ter.

Veja bem. O universo tem 15 bilhões de anos, e por isso é bem provável que existindo vida inteligente em algum outro planeta ela já possa estar se desenvolvendo há muito mais tempo que os nossos 125 mil anos. E isso seria catastrófico, pois como vimos vida inteligente evolui muito rápido e dessa forma geraria um abismo sem fim entre nossas civilizações. Se atualmente estamos vivenciando uma época onde cada década já é responsável por transformações grandiosas na sociedade, logo mais adiante serão em anos, meses. Por isso, imagine uma civilização que já possa estar nesse ritmo frenético de desenvolvimento a nossa frente não a alguns anos (o que já seria calamitoso), mas a milhares, MILHÕES de anos. E pela infinidade de possibilidades universais, não deve ser difícil existir essa possibilidade. O que eles não poderiam fazer com a gente??? Se é que já não estão fazendo... Nossas ações já poderiam estar sendo, agora mesmo, totalmente vigiadas (como eu escrevendo esse texto) e por que até não dizer controladas e até manipuladas.

E se os parâmetros nesse hipotético planeta forem totalmente discrepantes dos quais a gente demorou séculos para compreender? Poderia questionar, por exemplo, se a força da gravidade e as forças da natureza deles forem todas diferentes das que conhecemos, mas vou além. E se eles mesmos forem verdadeiros gigantes gulliverianos, com uma expectativa de vida infinitamente superior a nossa e com um cérebro bem maior e mais potente?

Não poderíamos pensar de modo diferente. Pois para os parâmetros universais tudo é maiúsculo. As distâncias, as dimensões. Outro exemplo, a estrela mais próxima a nós, obviamente, o Sol está a uma distância de 8 minutos-luz, mas a segunda mais próxima, a Proxima Centauri, já está a 4,3 anos-luz. E se quiséssemos ir à galáxia MAIS PRÓXIMA, a de Andrômeda, por exemplo, levaríamos 2,3 MILHÕES de anos.... ou seja possibilidades não faltam de existir algum planeta com vida há muitos mais tempo que o nosso.

Eles podem ser até beligerantes, agressivos. E já podem até terem nos visitados à surdina. Agora convenhamos se esses seres já tiverem desenvolvido uma tecnologia capaz em atravessar de forma eficiente essas longas distâncias cósmicas, com certeza eles já seriam tão mais evoluídos que provavelmente não se deixariam ser vistos, muito menos nos considerariam alguma ameaça. Porque conseguir viajar na velocidade da luz, o que para a nossa tecnologia vigente não passa ainda de um devaneio sem previsão de resolver, ainda é pouco. Pois só para irmos e voltarmos de Andrômeda, por exemplo, iríamos gastar 4,6 milhões de anos, talvez a Terra nem existisse mais. Por isso deve existir outro modo, pela velocidade da luz, essa tartaruguinha, não serve. E talvez eles achem até graça em nossa sociedade, comparando-nos como verdadeiros lilliputianos, ou seja, um povo de estatura extremamente pequena e que está constantemente em guerra por futilidades.

E se somos as bactérias da formiga poderíamos concluir que estamos num nível evolutivo, em pleno século XXI, ainda muito rudimentar. A despeito do que muitos preferem pensar. Apesar de todos ficarmos deslumbrados com a tecnologia atual, nem notamos a realidade: o quanto estamos num nível evolutivo ainda precário. Porque como se sabe as bactérias mais evoluídas não são aquelas que destroem seus hospedeiros, seu hábitat; ao contrário conseguem viver em simbiose com eles. E nós, seres humanos, ainda não atingimos isso, pois nosso processo evolutivo atual ainda é extremamente deletério (com a imensa emissão de CO2 em carros, usinas, por exemplo) tanto pra o nosso planeta Terra, a nossa formiga, como para nós mesmos que vivemos em Guerras uns com os outros.

Enfim, esse texto ficou muito informativo. Espero que ao menos o cerne dele reverbere um pouco em você: como a vida inteligente evolui muito rápido.... e mesmo tendo consciência que ainda estamos engatinhando evolutivamente não tem como não se impressionar com nossa evolução. Pois antes éramos apenas 300 milhões no mundo todo e não existia nada senão ovelhinha pra cá, ovelhinha pra lá. Apenas dois mil anos após e já consigo me manter praticamente conectado em tempo real com quase todos os nossos outros 6 bilhões de lilliputianos....