
Cof, cof, cof. Argrgrgrgr. Cof, cof, cof. Sangue.
Estava caquético. Vivia solitário à penúria numa pobre cidade ao norte da Colômbia – Santa Marta. Tossia sem parar. A face suava. Sentia frio, fazia calor. Nem de longe lembrava a compleição vigorante de anos atrás. O espírito idem... Outro acesso de tosse. Nova expectoração com sangue, dessa vez mais intensa. Um fim melancólico marcava com ironia seu crepúsculo; logo ele, com tantas vitórias em sua biografia. Havia libertado cinco países sul-americanos do domínio espanhol (Venezuela, Colômbia, Bolívia, Peru e Equador), mas a essa altura seus pulmões deviam representar um desarranjo estrutural tão caótico que respirar passava a ser uma ação unicamente voluntária, e por vezes dolorosa. Nesse estado deplorável, após mais um acesso de tosse proferiu a frase que marcou o dia da sua morte. 17 de dezembro de 1830. A frase:
“A única coisa a se fazer na America Latina é emigrar”
Será que eu também estou morrendo de tuberculose. Talvez seja prudente se afastarem de mim. Não quero tossir bacilos de Koch em vocês. Mas é isso mesmo, tenho que encarar os fatos: não estou tossindo, tampouco caquético, muito menos venho perdendo peso... Realmente meu físico em nada se assemelha ao de Simon Bolívar em seus últimos momentos. O físico não. Mas espiritualmente a cada dia mais me aproximo do dele e me convenço que realmente “a única coisa a se fazer na America Latina é emigrar”.
A violência se banalizou. Está em todos os lugares, não mais na periferia, e como bem disse meu amigo Alexandre: “virou moda”.
E o pior nem mais nos importamos com ela. Nada é pior do que se descobrir indiferente às más notícias que saem diariamente nos jornais. Acostumamos-nos, tristemente.
Ela desvirtuou tanto nosso discernimento, que vibramos com a tortura e os excessos do filme Tropa de Elite.
Ademais, pagamos uma carga tributária arquejante. Só na Turquia o fardo é maior. São 27,5% de IR, 11% de INSS, CPMF, ICMS, IPVA, IPTU.... e a lista simplesmente não tem fim. E eles rindo. Bebendo vinho, fumando charutos, freqüentando prostíbulos, nos tratando como putas (e das mal pagas), trabalhando só três dias por semana, e ganhando, só para falar em relação aos deputados federais, 150 mil reais por mês (incluindo todas as suas regalias “legais”). São os mais caros do mundo. Somos, talvez, ricos e nem saibamos por manter com "luxo" esse lixo moral.
Fora que todos os produtos que compramos, dos chinelos aos carros, 40% dos seus preços, em média, são só de impostos. Quer comprar uma geladeira? Metade do preço dela é imposto que você vai pagar. Quer comprar feijão? Idem. Ou seja, além de todos aqueles impostos escancarados ainda pagamos vários ocultos em qualquer coisa que compramos.
Assim, somos ricos, porque pagamos impostos triplicados. Os públicos duas vezes (os escancarados e os ocultos) que são ineficientes, e pela terceira vez alguns privados pra remendar. Sejam escolas particulares para os filhos, planos de saúde para os pais, seguro para o carro – isso quando não o blindamos, previdência privada para o futuro.
E eles rindo.
E nós nos influenciando pessimamente. Já não temos bons costumes enraizados mesmo. Como, por exemplo, atitudes corriqueiras e algumas vezes cheias de hipocrisia que ajudam os criminosos. Como ficou evidente no filme citado acima.
Mas também são praticas condenáveis todas as que formam o “jeitinho brasileiro”, que permite uma convivência promíscua entre o legal e o ilegal. Seja desde besteiras como furar o semáforo vermelho, a colocar macacos pra roubar a luz dos vizinhos, até a querer se dar bem colocando água oxigenada no leite das crianças. Assim como àquelas atitudes famigeradas “feitas sistematicamente” no Brasil, dos desvios de dinheiro público, dos caixas-dois, dos superfaturamentos...
E o menino que mora na favela vai se espelhar em quem? Quem ele vai querer ser quando crescer? Ora, em quem? No dono da favela, em quem mais?! Veja bem ele é respeitado por todos, cobiçado por todas as meninas, só anda com trancelim de ouro, carro da hora.... assim como nós nem estamos percebendo como aos pouquinhos a desonestidade cada vez mais vai se incorporando ao nosso caráter. Lógico. Lula e Cia nos ensinam, que não adianta estudar, que o crime compensa sim, que somos Phd em impunidade, que afirmar ter ignorância em não saber do que acontece até responsabilidades que eram inerentemente suas. E nós? Quem vamos "querer ser quando crescer"??
Pensando bem, eles têm que rir mesmo.
Se bem que talvez eu só vá rir mesmo, quando muito longe daqui estiver. Quero fugir logo e interromper precoemente essa pos-graduação em desonestidade a que todos somos submetidos diariamente. Antes que seja tarde demais.
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