domingo, 16 de setembro de 2007

A Sombra Crocitante



Eles estão chegando... e você já colocou perfume hoje?


Dias atrás, à tarde...

Estava caminhando pela calçada quando um cheiro nauseante chamou minha atenção. Um cheiro forte de enxofre, típico das coisas podres, era evidente ao meu redor. Olhei em volta: nem um sinal por perto de nada em putrefação. Tentei ignorar e seguir adiante; no entanto, a permanência da inhaca me perturbou. Perquiri, então, minudentemente o chão em busca de algum enxame de moscas que poderiam denunciar a fonte catingosa. Em vão. Tudo porque custei a acreditar que ainda poderia estar vivo o ser que exalava tão desagradável cheiro. Só então percebi algo atordoante: ele parecia vir de todos os lugares, de todos os lados. Olhei em volta novamente. A impossibilidade aparente de imputar a algo me deixou confuso. Só após algum tempo, como uma loira em que a "ficha demora a cair", percebi pasmado como aquele cheiro fétido exalava fortemente de mim.

Iria manchar minha reputação familiar caso cruzasse com alguém na rua e ser pego naquele estado quase cadavérico. Duraram apenas poucos segundos pra ver esse receio concretizado no pior estilo Murphyóide, quando escutei por trás de mim uma voz familiar chamar meu nome. A nitidez da voz revelava uma distância que me impedia fingir ignorar e sair, por exemplo, correndo. Ao girar os calcanhares deparei-me com as pessoas mais fofoqueiras da pequena cidade do interior onde me encontrava. Estava evidentemente arruinado. Seria motivo de chacota por anos. Não consegui disfarçar a apreensão, o que foi logo percebido pelas minhas interlocutoras, e justamente a primeira indagação delas de uma conversa banal que agora se iniciava.

-“Não, não foi nada. Só não estou me sentindo muito bem.” Enrolando respondi.

Pra minha surpresa, aquele cheiro insuportável, o meu cheiro, não parecia incomodá-las. Não sei como, porque me mantinha em pé com grande dificuldade. Meu cérebro estava tão concentrado naquele enigma, que apenas via suas bocas mexendo sem parar: ouvindo não registrava nada. Lutava mentalmente para encontrar uma explicação plausível para aquela intrigante situação. Foi quando me dei conta que a catinga parecia ter aumentado. Por um instante suspeitei que ela pudesse também vir delas. Simulei coçar a perna pra chegar meu nariz mais perto delas e fungando tirar a dúvida. Infelizmente, a confirmação. Eu que já estava meio inclinado, com aquela inspiração extra, quase dali mesmo desabava. Por isso que elas não estavam se incomodando, tinham se acostumado, era o mesmo cheiro delas também.

Eu que já estava confuso fiquei sem entender menos ainda. E as horas que se sucederam do dia apenas complicariam ainda mais. Terminada a conversa. Voltei ao meu itinerário inicial. Deparei-me com outras pessoas e o mesmo tinha acontecido: não esboçaram o mais simples incômodo, como também exalavam o mesmo odor sulfídrico. Ou tinha adquirido uma ingrata alucinação olfativa, ou simplesmente tinha que aceitar que de todas as pessoas desprendiam aquele fétido bodum. E ninguém parecia perceber isso. Quando uma característica, mesmo que ruim, é comum a maioria das pessoas ela passa a ficar despercebida.

Só depois de um tempo tudo ficou claro pra mim. Só depois de um tempo passei a entender tudo. Havia uma explicação irrefutável para aquilo tudo... mas infelizmente talvez preferisse ter ficado sem entender...

Hoje, mais cedo...

BRRRRRRRRRR......brrrrrrrrrr......BRRRRRRRRRR......brrrrrrrrrr

O silêncio quase sepulcral do quarto era quebrado apenas pelo ventilador que oscilava. Deitava-me de bruços. Breu. Meu pé esquerdo pendia um pouco pra fora da cama e apenas seu balançar frenético denunciava a impaciência sobre a qual tentava evitar pensar. Olhos fechados, as sobrancelhas enrugando a glabela. A mão esquerda inerte por baixo do travesseiro sentia a compressão da face esquerda, enquanto a direita tateava o chão embaixo de minha cama. Buscava pela quarta vez descobrir as horas em meu celular. Quando a luz branca, ao abrir o flip, se acendeu: 3:47. Pra minha surpresa só havia passado 22 minutos desde a última checagem. Logo eu que pela minha famigerada paz de espírito dormia tão fácil. Não lembrava a última noite em claro remexendo-me de um lado a outro. Era evidente minha intranqüilidade expressa naquela insônia. E por mais que tentasse evitar pensar sobre o assunto sabia muito bem do que se tratava: estava com medo! Estou tentando perder um pouco o meu já característico exagero, mas acredite, caro leitor, tentar expressar o que estava sentindo apenas com “medo” e um único ponto de exclamação: é pouco. Estava apavorado!!! Enfatizo as “!!”.

Estava mesmo apavorado. Estava apavorado que a essa altura Eles já deviam estar migrando pra cá. E essa idéia reverberando em meu inconsciente não me deixava dormir. Tenho certeza que se você soubesse sobre o que estou falando era você agora que também começaria a ficar, que também não conseguiria dormir.

....

Tenho andado triste. Mesmo. Pela primeira vez tenho vergonha profunda em dizer que sou brasileiro. Há coisas repugnantes acontecendo e a maioria das pessoas parece nem perceber; muitas outras, ao invés, percebem, criticam, se indignam como eu, mas assim como eu nada fazem pra reverter isso. Por isso, como o mais grotesco: na verdade estou com nojo até de mim mesmo.

Como havia mencionado no texto “Os Funcionários” meses atrás nós “somos péssimos. Péssimos como povo” para justamente deixar claro nossa mea-culpa pelo nosso subdesenvolvimento, e não apenas imputar aos governantes como é o comum. Subdesenvolvimento não apenas econômico, mas sobretudo humano também. Pode parecer exagero, contudo pequenos atos errados nossos quando multiplicados por milhões passam a nos caracterizar como brasileiros e a frear o crescimento da “empresa” Brasil. E naquele texto, ainda, num dado momento, em tom solene e funéreo, reconheci:

"...talvez a hora de nossa PUTREFAÇÃO MORAL deva estar cada vez mais próxima. Tornamo-nos, assim, MORTOS-vivos.
Um minuto de silêncio para nós mesmos."

Isso meses atrás....

No entanto, fazendo jus a máxima em que "nada é tão ruim que não possa piorar": pioramos. E muito. Pois se antes JÁ éramos mortos-vivos a partir do dia 12 de setembro de 2007, então, PASSAMOS A FEDER. Justamente o dia do primeiro julgamento de Renan. Onde ocorreu uma votação burlesca e palhaçal tão secreta que a urna não pôde nem ser filmada. Confesso que naquele dia fui dormir indignado, mas aliviado, porque sabia que aquilo tinha sido a gota d’água, a partir dali as grandes manifestações de ruas que ansiosamente há tempo aguardava iriam se difundir por todo o país. A partir dali tudo mudaria. Fui dormir tentando criar alguma “musiquinha” de protesto pra quando estivesse nas ruas em algum movimento poder gritar de olhos fechados, cara-pintada e socando o ar com o punho cerrado: extravasando toda minha indignidade nutrida diariamente nos últimos anos. Confesso que um sorriso surgiu no canto da boca, quando na cama no estado hipnogógico, imaginava as grandes revoltas que se somariam a partir do dia 13. Nunca aguardei tanto o Jornal Nacional como na noite de 13 de setembro. Decepção, leda ingenuidade. Como todos sabemos nenhum "cara-pintada" a mais ínfima revoltazinha sequer....

E Lula, mas uma vez o ébrio barbudinho nos presenteou: “Eu não acho que haja impunidade. Deus queira que o Brasil continue sendo um país com regras que dêem direito às pessoas de se defender."

Repito. Se antes tínhamos nos tornado mortos-vivos, a partir do dia 12 de setembro passamos a feder. Todos nós. Alguns mais outros menos. Alguns por imprudência, enquanto outros por negligência de ação contra os imprudentes.

E agora estou aqui: são 4:03, é a quinta vez que olho as horas em meu celular. Deitado na cama, revirando-me de um lado a outro com um medo inconsciente que não me deixa dormir. Medo do nosso putrefato cheiro coletivo. E meu pé esquerdo, não consigo fazer ele parar de balançar.

Medo de o dia virar noite. E de um pouco antes disso, medo de quando seremos surpreendidos com um barulho ao longe, que vai crescendo lentamente até torna-se insuportável e assustador. O barulho de uma miríade de siringes crocitando lugubremente. Incontáveis. Assustador. E no chão, como independence day, a sombra avançando gradativamente. A sombra crocitante. E quando ela nos encobrir por completo, veremos no céu um organismo vivo gigantesco, composto por inúmeros seres pretos e repugnantes, oriundo de todos os lugares do mundo, sobretudo da África, vindos atraídos pelo nosso cheiro coletivo. E então o dia virará noite.

E quando estivermos todos em pânico sentiremos os respingos, como uma chuva, da sedenta saliva de nossos algozes nos sobrevoando. Eles já estarão inebriados do que para eles, lá do alto, será a visão de um verdadeiro banquete pantagruélico.

Por isso, que venham os urubus!

Talvez não saibas, mas mesmo medonhas elas são consideradas aves catartídeas. E o gr. kathartés, quer dizer “o que limpa, purifica”

E caso você não deseje passar por esse doloroso processo de purificação aconselho a quando for colocar perfume hoje, só por precaução, a dar uma boa caprichada.

E talvez como única solução pra nossa dignidade: que venham os urubus!!



sexta-feira, 7 de setembro de 2007

DO CHEIRO AOS....



(história baseada em fatos reais)


Era uma terça-feira. Ensolarada terça-feira. Por volta das três e trinta da tarde. Calorenta três e trinta. Hospital Santa Joana, Bairro do Derby, Recife, Pernambuco. Não acreditava no que estava me acontecendo. Sangrava e chorava sem parar num misto de dor, medo, tristeza e perplexidade....


Poucas vezes vivenciei algo tão angustiante, tão assustador. Talvez inclusive nunca mais venha a vivenciar. Acreditem, não aconselho ninguém passar por algo parecido. Vê-se frente a frente com sua própria morte é indescritivelmente arrepiante. Você sabe que esse dia vai chegar, mas não sabe como nem quando, e outra certeza é que nunca se consegue estar preparado pra essa experiência. Carl Sagan, no entanto, dizia “devido a minha doença (leucemia) eu já ‘quase morri’ algumas vezes... e ‘quase morrer’ é uma das experiências que mais engrandecem um homem, mas infelizmente não posso aconselhá-la a ninguém”


E agora era eu que estava prestes a viver a minha...


Momentos antes, estava, porém, praticamente na “vida que pedira a Deus”, como um verdadeiro bon vivant: tudo o que precisava tinha a disposição, e em fartura. Todas minhas necessidades atendidas, nenhuma preocupação, vida mansa, tranqüila, só precisava mesmo era relaxar e aproveitar. Tudo bem que depois de algum tempo aquele cotidiano tornava-se um tanto monótono, ademais a sensação de conforto já não era mais a mesma, necessitando quase um verdadeiro contorcionismo para se adequar às limitações do meio, mas nada que me fizesse lamuriar.


Na manhã daquela terça-feira, porém, o universo ao meu redor não estava com sua paz habitual: algo a minha volta me incomodava. Como se algo estivesse tentando me avisar do caos que estava porvir. Pior que o desconforto foi se agravando no decorrer do dia... Não dei tanta importância, tentei relaxar e manter meus afazeres cotidianos. No entanto, não mais que de repente, aconteceu! Quando dei por mim, encontrava-me numa situação inusitada, inóspita, desconfortavelmente aterrorizante. Como fui parar nela? Juro que não fazia idéia. Só sei que não enxergava absolutamente nada, meu corpo doía praticamente todo, estava sendo empurrado para um local de um aperto claustrofóbico – sufocante – onde uma espécie de corda estrangulava meu pescoço e ainda uma mão parecia tentar esmagar a minha cabeça com força. O som era percebido abafado. Senti medo, meu coração disparava. Uma onda de frio percorria minha espinha. Tentei gritar, mas ao abrir a boca ao invés de sair qualquer ruído, entrou água.


Como assim? Água? Se bem que não parecia ser água, pois o líquido era viscoso e muito azedo. Onde estava? Que mão era aquela? Que lugar tão apertado era aquele que arquejava minha respiração além de impedir minha movimentação? Seria um seqüestro? Fora abduzido? Alienígenas estariam prestes a usar meu corpo para experiências sexuais, ou seqüestradores iriam tirar meus rins? O fato de não saber o que estava acontecendo: apavorava ainda mais. Acho que você, por mais que tente, não conseguirá imaginar quanto.


Comecei a ficar com o corpo todo formigando, e logo a seguir dormente: meu sangue mal circulava. Já com as extremidades cianosadas comecei a ficar com sono, provavelmente devido à baixa oxigenação cerebral. Não devia ser sono, eu provavelmente devia estar era morrendo. Não agüentaria muito tempo aquela situação asfixiante. Quando estava quase desmaiando foi então que algo aconteceu muito rápido. Como estava meio amortecido não recobro muito bem os detalhes desses instantes, apenas sei que aconteceu muito rápido. De repente meu corpo foi fortemente puxado, e levado pra um local barulhento onde podia me movimentar livremente. Podia, mas não conseguia, porquanto meus membros sem sangue apenas latejavam dolorosamente; quando, então, um calor a minha frente me fez perceber uma luz adiante muito forte, ofuscante. Se havia morrido, àquela deveria ser a luz de que tanto falavam no post-mortem, à semelhança de Ghost.


A corda em volta do meu pescoço havia sido retirada. Alívio. Porém no meio daquela luz percebi um vulto. Parecia alguém encapuzado. Era alguém encapuzado! Por uma brecha em seu capuz, era notável seu olhar fixo em mim. Um olhar gélido, impassível, tenso, com ar bastante sério. Testa e sobrancelhas franzidas. No fundo daquele olhar pude ver minha própria morte refletida. Ao esquadrinhar melhor aquela cena, percebi nas mãos dele o porquê ele me olhava com tanta fixação: uma espécie de faca. Ao ver aquilo só consegui pensar numa palavra, e ela dimensionava bem a gravidade daquela situação: "fudeu!". Totalmente aterrorizado, com meus membros todos imóveis, sem conseguir me defender, na iminência da morte, restou-me fazer o que as pessoas fazem no auge do desespero: chorar! Gritar!


Ao tentar fazê-lo, experimentei algo inédito. Fui invadido por um tipo de fluido estranho pelas minhas narinas o que fez meu tórax se distender de uma forma tão dolorosa, parecia que todas as minhas costelas iriam se quebrar... Engasguei-me duas vezes, e consegui, por fim, chorar. Foi neste instante, exatamente neste instante, quando passei a compreender tudo o que se passava: aquela luz não advinha de algo divino ou extraterreno, mas provavelmente de um foco cirúrgico; e aquele encapuzado, ao invés do meu carrasco seria um cirurgião tentando me salvar da morte iminente. Devia estar presenciando o momento exato em que seria cortado. Não dava pra conjecturar mais, pois tinha chegado a hora exata, o cirurgião com um movimento firme aproximou sua mão empunhando o bisturi da minha barriga. Assustado, de forma preventiva, aumentei meu choro. Ele então com um golpe fulminante e preciso me cortou. Meu sangue jorrou. Se estava num bloco cirúrgico ou numa sala de emergência, quem me via, me via sangrando e chorando sem parar num misto de dor, medo, tristeza e perplexidade...


........


E o mais estranho foi que não senti o corte... nada. O meu sangue escorria e nem o menor desconforto. Tantos acontecimentos estranhos fizeram-me questionar a realidade daquilo tudo, será que não estava protagonizando um pesadelo? Foi quando me dei conta que há muito já teria acordado apavorado.


E este caos que tão de repente e misteriosamente havia se instalado; da mesma forma abrupta e misteriosa havia se elucidado. Após o corte fui alçado pra um local, por trás de uma espécie de cortina, onde uma mulher de fisionomia desconhecida estava deitada visivelmente emocionada. Com o medo embaçando minha percepção ao me aproximar nem percebi com os olhos marejados a ternura que me fitava. Foi então que meu choro abruptamente cessou. Eu conhecia aquele cheiro! Era o cheiro que vinha daquela mulher que agora me abraçava rindo entre lágrimas. Como me tranqüilizou aquele cheiro, aquele abraço!


Foi então que tudo ficou claro pra mim... Por isso que não fazia idéia de como havia chegado àquela situação. Por isso que não senti o corte, por isso o porquê daquele local apertado, daquela "corda" e daquele estranho fluido que distendeu meu tórax. Não se tratava de um cirurgião num ato emergêncial de heroismo, tampouco se tratava da minha própria morte. Ou melhor, na verdade tratava-se da minha própria vida, mais precisamente a angustiante experiência de meu nascimento....


(to be continued)