segunda-feira, 14 de abril de 2008

Menos de 24 horas



(história baseada em fatos reais, alguns nomes abaixo foram mudados)

Essa é a história de Itamar. Uma história de uma pessoa qualquer, contudo com um final bem incomum, mas que poderia ter sido a sua, ou mesmo a minha história. E é justamente aí onde está o perigo.

Bem, Itamar no dia 10 de abril estava com exatos 32 anos. Pai de dois filhos, Bruno e Raquel, de 7 e 4 anos, respectivamente. Raquel, por sinal, tem lindos olhos azuis e marcantes cabelos cacheados, os quais puxou da mãe. Itamar é engenheiro civil, adora chocolate amargo, tem mania pelo número 5, torcedor do Náutico fanático, ou como ele mesmo gostava de dizer: fanáutico; e estava casado com Tereza, sua primeira namorada, com quem já estava junto há 15 anos: 8 anos de casado, e 7 de namoro prévio. Tinham um casamento praticamente perfeito, pois quase nunca brigavam, e adoravam tomar vinho a sós, as sextas à noite. Sempre o Reservado da ConchayToro, com a uva carmenère. Nessas especiais noites, Itamar costumava falar (propositadamente) um monte de besteiras só pra ouvir a risada gostosa de Tereza ( era viciado nela), e ela adorava passar horas e horas conversando com Itamar: adorava o jeito especial que ele tinha de fazê-la sorrir. E provavelmente era isso, a forma como adoravam conversar um com o outro, a base do sucesso dos dois como casal.

Tudo ia bem, muito bem aliás.... até o sol nascer no fatídico 10 de abril de 2008. Fatídica quinta-feira. Engraçado como alguns dias simplesmente não deveriam existir.

O dia 10 de abril começou com Itamar todo amostrado no café-da-manhã, estava imaginando a reação de seus colegas de trabalho quando vissem seu novo brinquedinho. Cliente da Claro há 5 anos, e com o ultimo plano expirado há alguns dias, ele fora no dia anterior a loja da Claro no Shopping Recife e saíra de lá com um novo celular cheio de “praquêisso?” e um modem pra conectar a internet em seu laptop onde quer que ele estivesse. Algumas palavras atrás onde há “novo brinquedinho”, leia, agora - modem banda larga 3G da Claro. E ao invés de “onde quer que ele estivesse”, pode ler agora “no trabalho de Itamar nesta quinta pela manhã”.

O dia que se iniciou com um belo céu azul, foi uma tormenta para Itamar. Um pouco antes do almoço ele bateu seu carro (se distraiu e bateu na traseira de uma Ecosport preta que estava parada num sinal. Pior: o carro dele amassou todo, e a Eco nem um tico), ademais se esqueceu de pagar uma parcela do seu imposto de renda (estava no ultimo dia do vencimento, e Itamar toda vez xingava por que não dispunham de débito automático; mas ele prometeu que iria pagar sem falta na sexta), e, pra completar, a demonstração da internet móvel para os amigos havia sido um fiasco, o modem só apresentou umas taxas pífias de conexão, 50-90kbps, nem perto do 1Mbps do contrato. Tem dia que é assim mesmo, parece dar tudo errado. Isso por que ele ainda nem sabia o quanto ainda iria piorar.

Ao chegar em a casa, à noite, ele resolveu ligar pra Claro. Estava com medo de ter feito um péssimo negócio ao assinar contrato com o modem por um ano, e queria alguma explicação. Seu dia que já estava irritante, em nada melhorou com os 28 minutos escutando Freddie Mercury cantando incontáveis vezes o refrão “One dream, one soul... It's a kind of magic... The bell that rings inside your mind... It's a kind of magic...”, a musiquinha-tema da nova campanha 3G da Claro que fica tocando enquanto se espera pelo atendente. No começo é até agradável, mas depois de alguns minutos se torna irritante; e quase beirando aos 30 minutos de espera, passa a ficar insuportável. Impaciente, resolveu desligar antes de ser atendido, e antes de transferir toda sua raiva pra seu ídolo do Queen.

Saiu do quarto e se dirigiu a sala. Estava com dor de cabeça, a cabeça estava pesada. Sabia que apenas uma coisa no mundo inteiro diminuiria àquela intensa irritação causada por dia tão ingrato. Foi justamente a coisa que ele encontrou em cima do sofá vestida com uma roupa casual assistindo a novela Beleza Pura. Ele achava fantástico como conseguia achá-la estonteantemente linda, mesmo naquela roupa simples, com sandálias havaianas, sem maquiagem, sem brincos e com as pernas levemente precisando depilar.

Mal sabia ele que aquela cena de sua mulher singelamente bela no sofá seria uma das ultimas percepções que seus sentidos captariam. E se soubesse disso, garanto-vos, teria ele olhado com um pouco mais de atenção, mas como já aprendemos: nunca dá pra saber a última vez que veremos alguém. De fato, quando Itamar se dirigia ao sofá, sua mulher compenetrada na novela, sem mal tirar os olhos da Tv (era justamente o momento que Guilherme - Edson Celulari - se assustava quando Raul - Leopoldo Pacheco - contava que Norma - Carolina Ferraz - estaria pensando que eles estavam namorando) e sem falar nada, pediu com um gesto de mão e um rápido olhar pra Itamar sentar-se ao lado dela. No momento em que Itamar estava a uns dois passos dela, sentiu uma abrupta e insuportável dor de cabeça e logo a seguir, ele, quando já estava a alguns centímetros de tocar o solo desmaiado já não enxergava mais nada.

Exatamente no instante que o rosto de Itamar tocou no chão de seu apartamento, Bruninho, no quarto ao lado, acabava de marcar o gol da vitória do Nautico sobre o Barcelona em Fifa 2007 de seu Playstation 2, Raquelzinha roncando dormia, e eu, a alguns kms dali, apertava o alarme do carro no chaveiro pra ir embora do Hospital da Restauração (HR), após um dia intenso de trabalho. Eu estava saindo justamente do hospital para onde levariam Itamar logo mais.

....

É agora que eu entro na história. É agora que minha história cruza brevemente com a de Itamar, Tereza e Mike. Sim, só agora percebi que havia esquecido o excêntrico Mike (fala-se “maique”).

Eu, como todos aqui devem saber, sou médico formado desde 2005, e atualmente estou fazendo residência em cirurgia geral há um pouco mais de um mês. Meu rodízio atual (todo mês é um rodízio diferente) é na emergência do HR, de segunda a sexta, e nesta ultima sexta a história de Itamar se cruzou com a minha.

Nosso encontro. Minha R2 chegou pra mim e falou: “Gildo aquele paciente ali entubado (o Itamar) está precisando de um acesso venoso central.”. Ao que prontamente me dirigi a ele, já que residente de cirurgia no início do curso fica ávido por realizar procedimentos, para ganhar prática. Ao me aproximar, encontrei-o já entubado, o respirador apitando como de praxe, e uma plaquinha presa ao leito onde estava escrito “AVCH, NCR”. Significava: Acidente Vascular Cerebral Hemorrágico e Neurocirurgia. Na hora, pensei que só teria contato com ele naquele procedimento, já que o caso dele era pra ser acompanhado pelos neurocirurgiões. Nem sabia o quanto estava enganado. Enfim, alheio ao que me aguardava dei início ao procedimento. Após fixar o cateter venoso central na veia jugular interna direita de Itamar, fui à mesa para solicitar um Raio X de controle para saber se o cateter estava na posição correta e se não havia surgido nenhuma complicação do procedimento. Foi quando descobri pela primeira vez o nome de meu paciente. Pronto. Procedimento realizado com aparente sucesso, Raio X solicitado, era só aguardar o maqueiro e o neurocirurgião para avaliá-lo. Nossa história teria terminado aí se por algumas peculiaridades do HR (no caso a falta de maqueiros) eu não fosse compelido a ajudar a levar Itamar ao Raio X e à Tomografia.

A Unidade de Trauma do HR, onde eu e Itamar nos encontrávamos, muitas vezes parece como parte de algum filme, tipo “Jogos Mortais”, já que há amontoados de macas com pacientes graves ou gravíssimos em cima, alguns vomitando sangue no chão, outros totalmente desfigurados, outros entubados e a maioria gemendo alto, o que conferia àquele ambiente um mal-estar peculiar e meio angustiante. E por mais que com o tempo você termine se acostumando um pouco, é impossível não se manter sempre incomodado. Como o maqueiro estava demorando a chegar resolvi eu mesmo empurrar sua maca para fazer os exames. Ao sair da Unidade de Trauma e entrar nos corredores do HR, cujo amontoamento de pacientes não é muito diferente, percebo uma mulher de um pouco mais de 1,6m, corpo atlético, olhos bem azuis, se aproximando. Pelo olhar apreensivo que me fitava, já sabia o que ela iria perguntar: “Eu sou a esposa dele. Como ele está Doutor?”. Sem saber muito o que dizer, tentei não sair do óbvio: “Nós estamos levando ele pra fazer uma tomografia e só então poder saber a real gravidade do caso”, quando falava percebi que ela segurava um bonequinho do filme Monstros S.A., um verdinho que tem umas pernas bem finas e compridas e um corpo redondo praticamente todo ocupado por um olho único e bem grande. Sem ter mais o que falar, por enquanto, voltei a minha jornada de empurrar a maca até o setor de Radiologia. Quando me virei e comecei a andar, ouvir sua esposa me chamar mais uma vez por trás de meu ombro: “Doutor Gildo, doutor Gildo!” (ela já devia ter lido meu nome no jaleco)

-Será que o senhor poderia levar esse bonequinho junto com ele? Foi nossa filha que pediu, ela disse que é pra deixar o pai dela bom logo. O nome dele é Mike.

-“É, eu sei. Tenho sobrinhos e já assisti com eles Monstro S.A também” – pensei. Apesar de talvez não ser muito oportuno, concordei: “Não querida, não tem problema nenhum, eu levo o Mike junto com ele

E segundos depois estava empurrando a maca, um doutorando ambusando (ajudando o paciente a respirar com um balão – o AMBU – que necessita que fiquemos o apertando. Daí o gerúndio neologístico: ambusando), e o um tanto grotesco Mike (mais cheio de significado) em cima do peito do Itamar. Àquela altura, toda ajuda era bem-vinda.

Após posicionar Itamar na mesa do tomógrafo, me dirigi ao técnico que estava numa salinha ao lado, protegida contra as radiações ionizantes, observando o exame progredindo na tela do computador. Estava curioso pra saber se o exame acusaria alguma coisa. Curioso como sempre sou, e agora um pouco mais em especial pelo bonequinho que levei comigo no bolso do meu jaleco à sala do técnico.

Quando o exame estava sendo realizado, e as imagens foram aparecendo paulatinamente na tela do computador, uma palavra foi ouvida na sala e que dimensionava muito bem a gravidade daquele exame:

-Caralho!



Realmente era difícil pensar em outra palavra para representar bem aquele importante sangramento (a parte branca dentro do crânio, setas azuis) que o paciente apresentava. E pela extensão e pela localização, na hora, só consegui pensar na temida Aneurisma de Artéria Cerebral Média, que no caso dele já havia rompido....


Saí da salinha, me dirigi ao Itamar no tomógrafo. Colocamo-lo na outra maca. Fiquei olhando para ele fixamente por algum tempo, a imagem no computador há pouco reverberava na minha mente...



Foi quando algo me veio à tona. Fui até o doutorando que estava novamente ambusando Itamar, o mandei parar e desconectei o AMBU do tubo traqueal. Sem o auxílio do AMBU, a respiração ficaria a cargo exclusivo dos músculos intercostais e do diafragama do ITAMAR. Todos na sala agora torciamos que ele esboçasse alguma respiração por conta própria. Com os olhos fixos nele, todos passamos a observá-lo. Esperamos um minuto, dois minutos, e NADA aconteceu: apnéia total. Mandei o doutorando voltar a ambusá-lo, e fui olhar suas pupilas com um foco luminoso. Anisocóricas e sem fotoreagir (ou seja, uma maior que a outra, e sem contrair sob a luz forte). Retrai a manga de meu jaleco, olhei meu relógio, marcava exatamente 11:22, impressionante, não fazia nem 16 horas depois da queda de Itamar em sua casa, e já poderíamos considerá-lo como em MORTE ENCEFÁLICA. Não havia mais perspectivas de cura para ele, nada que se pudesse fazer.... e o Mike, no meu bolso, não parava de olhar pra mim.

Fiquei totalmente abalado com aquela situação, e infelizmente mais uma dentre tantas que iria passar naquele dia. Ser médico não é nada fácil mesmo. Um rapaz super novo, trinta e poucos anos, sem doenças prévias, e... morto. E de forma tão rápida e inesperada. Restava agora enfrentar a difícil realidade e voltar com o paciente à Unidade de Trauma.

No entanto, a volta não seria tão fácil assim. Quando estava a uns 20 metros da Unidade de Trauma pude ver de relance que sua esposa (era Teresa) já me aguardava aflita. Apesar da face tensa, era notável no fundo de seus olhos uma luz de esperança, e na mão esquerda, agora, havia um terço entre seus dedos. Por alguns instantes desejei não encontrá-la, não ter a dolorosa tarefa de apagar aquela luz de seus olhos, não ter que sentir através de sua alma a dor pungente de quem perde um ente tão próximo. E, sobretudo, quando essa pessoa que se vai é muito mais que um ente próximo, mas parte da própria vida da pessoa que fica (e as melhores partes)? E quando é ao mesmo tempo o melhor amigo, o melhor marido, o melhor genro, o melhor cunhado, o melhor amante, o melhor pai dos filhos? Como dizer para o Bruninho que com 7 anos já entendia tudo? E nos braços de quem agora a Raquelzinha iria pegar no sono?

Sem dúvida, é o momento mais difícil da minha profissão.

-E aí?! – Tereza ao ir ao meu encontro.

Nunca pensei que uma pergunta com apenas três letras pudesse ser tão difícil de responder. Porém, inevitavelmente o meu semblante entristecido já respondia tudo. Ela pareceu entender tudo. Porém, repetiu a pergunta exigindo uma explicação. “Quero saber tudo”, retrucou ela.

Passamos praticamente 10 minutos conversando. Difíceis 10 minutos; 10 minutos que não se esquece facilmente. Ela me contou muito sobre a vida dos dois: quando se conheceram, onde passaram a lua-de-mel, a forma como era uma pessoa exemplar, um pai exemplar, etc. A risada de Tereza que o Itamar tanto gostava eu não pude ouvir, em contrapartida o grunhido chocante do seu choro incontido vai ser difícil de esquecer, e vira e mexe ainda o escuto inevitavelmente, mesmo já tendo passado alguns dias daquele marcante encontro.

No meio daquele desespero, Tereza entre lágrimas e soluços solicitou um último favor a mim: “quero que você me ajude a doar todos os órgãos dele, era isso que ele desejava”. Diante do inconfortável, do incompreensível, do inaceitável, a forte Tereza desejava transfigurar àquele momento de pura dor em algo positivo para outras pessoas que ela nem conhecia, que ela nem conheceria. Na verdade, para no mínimo 6 pessoas, no caso de Recife, já que dispomos aqui de suporte para transplante de Fígado (1), de rins (2), de coração (1) e de córneas (2).

Ao voltar à unidade de trauma dei início ao protocolo para a doação dos órgãos de Itamar, agora, meu paciente. Trata-se de dois exames clínicos, onde se vai checar alguns reflexos (como os da pupila, o córneopalpebral e o da respiração), realizado por dois médicos diferentes em um espaço de 6 horas entre os exames. Além de ser obrigatório um exame para avaliar o funcionamento cerebral, no caso do HR, o encefalograma e outros laboratoriais para avaliar a qualidade dos órgãos.

Tudo ficou pronto às 18:40 do dia 11 de abril de 2008. Menos de 24 horas de Itamar pela última vez olhar com ternura para sua mulher, sentada no sofá. Antes ele era um marido exemplar, cheio de vigor físico, sem nunca ter tido nenhuma doença prévia, extremamente novo; agora, menos de 24 horas depois, estava ele ali, entubado, com os órgãos todos prontos para serem doados. Menos de 24 horas...

E o Mike, em cima dele, já não estava mais olhando pra mim....

Essa foi a história de Itamar, mas que poderia ter sido a sua, ou mesmo a minha história. E é justamente aí onde está o perigo.

E você já pensou como vão ser as suas próximas 24horas?