
Eles estão chegando... e você já colocou perfume hoje?
Dias atrás, à tarde...
Estava caminhando pela calçada quando um cheiro nauseante chamou minha atenção. Um cheiro forte de enxofre, típico das coisas podres, era evidente ao meu redor. Olhei em volta: nem um sinal por perto de nada em putrefação. Tentei ignorar e seguir adiante; no entanto, a permanência da inhaca me perturbou. Perquiri, então, minudentemente o chão em busca de algum enxame de moscas que poderiam denunciar a fonte catingosa. Em vão. Tudo porque custei a acreditar que ainda poderia estar vivo o ser que exalava tão desagradável cheiro. Só então percebi algo atordoante: ele parecia vir de todos os lugares, de todos os lados. Olhei em volta novamente. A impossibilidade aparente de imputar a algo me deixou confuso. Só após algum tempo, como uma loira em que a "ficha demora a cair", percebi pasmado como aquele cheiro fétido exalava fortemente de mim.
Iria manchar minha reputação familiar caso cruzasse com alguém na rua e ser pego naquele estado quase cadavérico. Duraram apenas poucos segundos pra ver esse receio concretizado no pior estilo Murphyóide, quando escutei por trás de mim uma voz familiar chamar meu nome. A nitidez da voz revelava uma distância que me impedia fingir ignorar e sair, por exemplo, correndo. Ao girar os calcanhares deparei-me com as pessoas mais fofoqueiras da pequena cidade do interior onde me encontrava. Estava evidentemente arruinado. Seria motivo de chacota por anos. Não consegui disfarçar a apreensão, o que foi logo percebido pelas minhas interlocutoras, e justamente a primeira indagação delas de uma conversa banal que agora se iniciava.
-“Não, não foi nada. Só não estou me sentindo muito bem.” Enrolando respondi.
Pra minha surpresa, aquele cheiro insuportável, o meu cheiro, não parecia incomodá-las. Não sei como, porque me mantinha em pé com grande dificuldade. Meu cérebro estava tão concentrado naquele enigma, que apenas via suas bocas mexendo sem parar: ouvindo não registrava nada. Lutava mentalmente para encontrar uma explicação plausível para aquela intrigante situação. Foi quando me dei conta que a catinga parecia ter aumentado. Por um instante suspeitei que ela pudesse também vir delas. Simulei coçar a perna pra chegar meu nariz mais perto delas e fungando tirar a dúvida. Infelizmente, a confirmação. Eu que já estava meio inclinado, com aquela inspiração extra, quase dali mesmo desabava. Por isso que elas não estavam se incomodando, tinham se acostumado, era o mesmo cheiro delas também.
Eu que já estava confuso fiquei sem entender menos ainda. E as horas que se sucederam do dia apenas complicariam ainda mais. Terminada a conversa. Voltei ao meu itinerário inicial. Deparei-me com outras pessoas e o mesmo tinha acontecido: não esboçaram o mais simples incômodo, como também exalavam o mesmo odor sulfídrico. Ou tinha adquirido uma ingrata alucinação olfativa, ou simplesmente tinha que aceitar que de todas as pessoas desprendiam aquele fétido bodum. E ninguém parecia perceber isso. Quando uma característica, mesmo que ruim, é comum a maioria das pessoas ela passa a ficar despercebida.
Só depois de um tempo tudo ficou claro pra mim. Só depois de um tempo passei a entender tudo. Havia uma explicação irrefutável para aquilo tudo... mas infelizmente talvez preferisse ter ficado sem entender...
Hoje, mais cedo...
BRRRRRRRRRR......brrrrrrrrrr......BRRRRRRRRRR......brrrrrrrrrr
O silêncio quase sepulcral do quarto era quebrado apenas pelo ventilador que oscilava. Deitava-me de bruços. Breu. Meu pé esquerdo pendia um pouco pra fora da cama e apenas seu balançar frenético denunciava a impaciência sobre a qual tentava evitar pensar. Olhos fechados, as sobrancelhas enrugando a glabela. A mão esquerda inerte por baixo do travesseiro sentia a compressão da face esquerda, enquanto a direita tateava o chão embaixo de minha cama. Buscava pela quarta vez descobrir as horas em meu celular. Quando a luz branca, ao abrir o flip, se acendeu: 3:47. Pra minha surpresa só havia passado 22 minutos desde a última checagem. Logo eu que pela minha famigerada paz de espírito dormia tão fácil. Não lembrava a última noite em claro remexendo-me de um lado a outro. Era evidente minha intranqüilidade expressa naquela insônia. E por mais que tentasse evitar pensar sobre o assunto sabia muito bem do que se tratava: estava com medo! Estou tentando perder um pouco o meu já característico exagero, mas acredite, caro leitor, tentar expressar o que estava sentindo apenas com “medo” e um único ponto de exclamação: é pouco. Estava apavorado!!! Enfatizo as “!!”.
Estava mesmo apavorado. Estava apavorado que a essa altura Eles já deviam estar migrando pra cá. E essa idéia reverberando em meu inconsciente não me deixava dormir. Tenho certeza que se você soubesse sobre o que estou falando era você agora que também começaria a ficar, que também não conseguiria dormir.
....
Tenho andado triste. Mesmo. Pela primeira vez tenho vergonha profunda em dizer que sou brasileiro. Há coisas repugnantes acontecendo e a maioria das pessoas parece nem perceber; muitas outras, ao invés, percebem, criticam, se indignam como eu, mas assim como eu nada fazem pra reverter isso. Por isso, como o mais grotesco: na verdade estou com nojo até de mim mesmo.
Como havia mencionado no texto “Os Funcionários” meses atrás nós “somos péssimos. Péssimos como povo” para justamente deixar claro nossa mea-culpa pelo nosso subdesenvolvimento, e não apenas imputar aos governantes como é o comum. Subdesenvolvimento não apenas econômico, mas sobretudo humano também. Pode parecer exagero, contudo pequenos atos errados nossos quando multiplicados por milhões passam a nos caracterizar como brasileiros e a frear o crescimento da “empresa” Brasil. E naquele texto, ainda, num dado momento, em tom solene e funéreo, reconheci:
"...talvez a hora de nossa PUTREFAÇÃO MORAL deva estar cada vez mais próxima. Tornamo-nos, assim, MORTOS-vivos.
Um minuto de silêncio para nós mesmos."
Isso meses atrás....
No entanto, fazendo jus a máxima em que "nada é tão ruim que não possa piorar": pioramos. E muito. Pois se antes JÁ éramos mortos-vivos a partir do dia 12 de setembro de 2007, então, PASSAMOS A FEDER. Justamente o dia do primeiro julgamento de Renan. Onde ocorreu uma votação burlesca e palhaçal tão secreta que a urna não pôde nem ser filmada. Confesso que naquele dia fui dormir indignado, mas aliviado, porque sabia que aquilo tinha sido a gota d’água, a partir dali as grandes manifestações de ruas que ansiosamente há tempo aguardava iriam se difundir por todo o país. A partir dali tudo mudaria. Fui dormir tentando criar alguma “musiquinha” de protesto pra quando estivesse nas ruas em algum movimento poder gritar de olhos fechados, cara-pintada e socando o ar com o punho cerrado: extravasando toda minha indignidade nutrida diariamente nos últimos anos. Confesso que um sorriso surgiu no canto da boca, quando na cama no estado hipnogógico, imaginava as grandes revoltas que se somariam a partir do dia 13. Nunca aguardei tanto o Jornal Nacional como na noite de 13 de setembro. Decepção, leda ingenuidade. Como todos sabemos nenhum "cara-pintada" a mais ínfima revoltazinha sequer....
E Lula, mas uma vez o ébrio barbudinho nos presenteou: “Eu não acho que haja impunidade. Deus queira que o Brasil continue sendo um país com regras que dêem direito às pessoas de se defender."
Repito. Se antes tínhamos nos tornado mortos-vivos, a partir do dia 12 de setembro passamos a feder. Todos nós. Alguns mais outros menos. Alguns por imprudência, enquanto outros por negligência de ação contra os imprudentes.
E agora estou aqui: são 4:03, é a quinta vez que olho as horas em meu celular. Deitado na cama, revirando-me de um lado a outro com um medo inconsciente que não me deixa dormir. Medo do nosso putrefato cheiro coletivo. E meu pé esquerdo, não consigo fazer ele parar de balançar.
Medo de o dia virar noite. E de um pouco antes disso, medo de quando seremos surpreendidos com um barulho ao longe, que vai crescendo lentamente até torna-se insuportável e assustador. O barulho de uma miríade de siringes crocitando lugubremente. Incontáveis. Assustador. E no chão, como independence day, a sombra avançando gradativamente. A sombra crocitante. E quando ela nos encobrir por completo, veremos no céu um organismo vivo gigantesco, composto por inúmeros seres pretos e repugnantes, oriundo de todos os lugares do mundo, sobretudo da África, vindos atraídos pelo nosso cheiro coletivo. E então o dia virará noite.
E quando estivermos todos em pânico sentiremos os respingos, como uma chuva, da sedenta saliva de nossos algozes nos sobrevoando. Eles já estarão inebriados do que para eles, lá do alto, será a visão de um verdadeiro banquete pantagruélico.
Por isso, que venham os urubus!
Talvez não saibas, mas mesmo medonhas elas são consideradas aves catartídeas. E o gr. kathartés, quer dizer “o que limpa, purifica”
E caso você não deseje passar por esse doloroso processo de purificação aconselho a quando for colocar perfume hoje, só por precaução, a dar uma boa caprichada.
E talvez como única solução pra nossa dignidade: que venham os urubus!!
5 comentários:
Pediram pra explicar oq significava....
"O barulho de uma miríade de siringes crocitando lugubremente."
miríade= uma quantidade muito grande de alguma coisa (no caso de urubus)
siringes= o nome do aparelho fonador das aves. E aqui cabe uma curiosidade. O gr. syrinx= a flauta de Pã. E esse deus dos bosques tinha o costume de deitar após o almoço, justamente naquele soninho que dá após o almoço, oq ficou conhecido como A HORA DE PÃ, e em alguns paises n se trabalha nessa hora. Caso ele fosse acordado nesse sono, tocava sua flauta e quem ouvisse ficava apavorado, ou melhor ficava em PÃnico, daí o nome desse desespero....
Crocitar= é o barulho q os corvos e os urubus fazem
Lugubre= relativo a morte, avisando da morte...
Ou seja o barulho meio funebre de incontaveis ururbus.
Mestre...
meu próximo texto seria extamente sobre isso...
ao ler o seu, peguei meu rascunho, cuspi, rasguei e pu-lo fogo!
Fantástico!
Sou também um sulfidrílico...
nem Channel resolve...
um abraço...
que venham os urubus...
É mestre, como dizia Renato Russo: “Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação! Que país é esse?”.
Essa daí, a tal da Constituição é outra... Tudo lindo e maravilhoso, mas na pratica cadê? Bom, temos de considerar que nosso regime de governo, a Democracia, ainda engatinha e o brasileiro não aprendeu fazer jus a ela. Já que democracia seria: o governo do povo, pelo povo, se ninguém cobra, os constituintes e governantes não tão nem ai pro Brasil. Daí dá no que dá palhaçada! Por quê? Porque se vende votos por qualquer coisa, vota-se em qualquer pessoa e por ai vai. Depois a gente chora, mas ai já foi...
Falta muita coisa pra fazer daqui um país verde e amarelo.
Mas continuamos a fazer nossa parte e conscientizar os demais.
Bjo
Braga...
N devia ter feito isso com o seu texto, sempre há algo a se acrescentar, sempre existe uma forma melhor de dizer a mesma coisa.... talvez só tenha dificultado um pouco o seu caminho original pra dizer a mesma coisa q eu disse...
Se bem q pelo tema do texto, até se fosse a mesma coisa já teria sido válido, pela carencia atual de demonstrações nesse sentido: em prol da ética, demonstrando repugnação pelo q estamos presenciando...
Q venha os urubus...
E sabado será q estaremos na manifestação???
Abraços
Gostei do q MArtinha falou...
Realmente ser um politico sério hj em dia deve ser mto dificil, já q o governo de um modo geral rouba da forma mais escancarada possivel e não se vê nenhuma manisfestaçãozinha na rua.
Em q o politico sério vai se embasar?? Se o povo parece n se indignar mais com nada....
Ao inves somos piores.... pq com a reeleição de Lula passamos a compactuar com o crime.....
Ai ai ai.. sei não. Estou nauseado. MElhor parar de pensar em tudo isso....
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