sexta-feira, 7 de setembro de 2007

DO CHEIRO AOS....



(história baseada em fatos reais)


Era uma terça-feira. Ensolarada terça-feira. Por volta das três e trinta da tarde. Calorenta três e trinta. Hospital Santa Joana, Bairro do Derby, Recife, Pernambuco. Não acreditava no que estava me acontecendo. Sangrava e chorava sem parar num misto de dor, medo, tristeza e perplexidade....


Poucas vezes vivenciei algo tão angustiante, tão assustador. Talvez inclusive nunca mais venha a vivenciar. Acreditem, não aconselho ninguém passar por algo parecido. Vê-se frente a frente com sua própria morte é indescritivelmente arrepiante. Você sabe que esse dia vai chegar, mas não sabe como nem quando, e outra certeza é que nunca se consegue estar preparado pra essa experiência. Carl Sagan, no entanto, dizia “devido a minha doença (leucemia) eu já ‘quase morri’ algumas vezes... e ‘quase morrer’ é uma das experiências que mais engrandecem um homem, mas infelizmente não posso aconselhá-la a ninguém”


E agora era eu que estava prestes a viver a minha...


Momentos antes, estava, porém, praticamente na “vida que pedira a Deus”, como um verdadeiro bon vivant: tudo o que precisava tinha a disposição, e em fartura. Todas minhas necessidades atendidas, nenhuma preocupação, vida mansa, tranqüila, só precisava mesmo era relaxar e aproveitar. Tudo bem que depois de algum tempo aquele cotidiano tornava-se um tanto monótono, ademais a sensação de conforto já não era mais a mesma, necessitando quase um verdadeiro contorcionismo para se adequar às limitações do meio, mas nada que me fizesse lamuriar.


Na manhã daquela terça-feira, porém, o universo ao meu redor não estava com sua paz habitual: algo a minha volta me incomodava. Como se algo estivesse tentando me avisar do caos que estava porvir. Pior que o desconforto foi se agravando no decorrer do dia... Não dei tanta importância, tentei relaxar e manter meus afazeres cotidianos. No entanto, não mais que de repente, aconteceu! Quando dei por mim, encontrava-me numa situação inusitada, inóspita, desconfortavelmente aterrorizante. Como fui parar nela? Juro que não fazia idéia. Só sei que não enxergava absolutamente nada, meu corpo doía praticamente todo, estava sendo empurrado para um local de um aperto claustrofóbico – sufocante – onde uma espécie de corda estrangulava meu pescoço e ainda uma mão parecia tentar esmagar a minha cabeça com força. O som era percebido abafado. Senti medo, meu coração disparava. Uma onda de frio percorria minha espinha. Tentei gritar, mas ao abrir a boca ao invés de sair qualquer ruído, entrou água.


Como assim? Água? Se bem que não parecia ser água, pois o líquido era viscoso e muito azedo. Onde estava? Que mão era aquela? Que lugar tão apertado era aquele que arquejava minha respiração além de impedir minha movimentação? Seria um seqüestro? Fora abduzido? Alienígenas estariam prestes a usar meu corpo para experiências sexuais, ou seqüestradores iriam tirar meus rins? O fato de não saber o que estava acontecendo: apavorava ainda mais. Acho que você, por mais que tente, não conseguirá imaginar quanto.


Comecei a ficar com o corpo todo formigando, e logo a seguir dormente: meu sangue mal circulava. Já com as extremidades cianosadas comecei a ficar com sono, provavelmente devido à baixa oxigenação cerebral. Não devia ser sono, eu provavelmente devia estar era morrendo. Não agüentaria muito tempo aquela situação asfixiante. Quando estava quase desmaiando foi então que algo aconteceu muito rápido. Como estava meio amortecido não recobro muito bem os detalhes desses instantes, apenas sei que aconteceu muito rápido. De repente meu corpo foi fortemente puxado, e levado pra um local barulhento onde podia me movimentar livremente. Podia, mas não conseguia, porquanto meus membros sem sangue apenas latejavam dolorosamente; quando, então, um calor a minha frente me fez perceber uma luz adiante muito forte, ofuscante. Se havia morrido, àquela deveria ser a luz de que tanto falavam no post-mortem, à semelhança de Ghost.


A corda em volta do meu pescoço havia sido retirada. Alívio. Porém no meio daquela luz percebi um vulto. Parecia alguém encapuzado. Era alguém encapuzado! Por uma brecha em seu capuz, era notável seu olhar fixo em mim. Um olhar gélido, impassível, tenso, com ar bastante sério. Testa e sobrancelhas franzidas. No fundo daquele olhar pude ver minha própria morte refletida. Ao esquadrinhar melhor aquela cena, percebi nas mãos dele o porquê ele me olhava com tanta fixação: uma espécie de faca. Ao ver aquilo só consegui pensar numa palavra, e ela dimensionava bem a gravidade daquela situação: "fudeu!". Totalmente aterrorizado, com meus membros todos imóveis, sem conseguir me defender, na iminência da morte, restou-me fazer o que as pessoas fazem no auge do desespero: chorar! Gritar!


Ao tentar fazê-lo, experimentei algo inédito. Fui invadido por um tipo de fluido estranho pelas minhas narinas o que fez meu tórax se distender de uma forma tão dolorosa, parecia que todas as minhas costelas iriam se quebrar... Engasguei-me duas vezes, e consegui, por fim, chorar. Foi neste instante, exatamente neste instante, quando passei a compreender tudo o que se passava: aquela luz não advinha de algo divino ou extraterreno, mas provavelmente de um foco cirúrgico; e aquele encapuzado, ao invés do meu carrasco seria um cirurgião tentando me salvar da morte iminente. Devia estar presenciando o momento exato em que seria cortado. Não dava pra conjecturar mais, pois tinha chegado a hora exata, o cirurgião com um movimento firme aproximou sua mão empunhando o bisturi da minha barriga. Assustado, de forma preventiva, aumentei meu choro. Ele então com um golpe fulminante e preciso me cortou. Meu sangue jorrou. Se estava num bloco cirúrgico ou numa sala de emergência, quem me via, me via sangrando e chorando sem parar num misto de dor, medo, tristeza e perplexidade...


........


E o mais estranho foi que não senti o corte... nada. O meu sangue escorria e nem o menor desconforto. Tantos acontecimentos estranhos fizeram-me questionar a realidade daquilo tudo, será que não estava protagonizando um pesadelo? Foi quando me dei conta que há muito já teria acordado apavorado.


E este caos que tão de repente e misteriosamente havia se instalado; da mesma forma abrupta e misteriosa havia se elucidado. Após o corte fui alçado pra um local, por trás de uma espécie de cortina, onde uma mulher de fisionomia desconhecida estava deitada visivelmente emocionada. Com o medo embaçando minha percepção ao me aproximar nem percebi com os olhos marejados a ternura que me fitava. Foi então que meu choro abruptamente cessou. Eu conhecia aquele cheiro! Era o cheiro que vinha daquela mulher que agora me abraçava rindo entre lágrimas. Como me tranqüilizou aquele cheiro, aquele abraço!


Foi então que tudo ficou claro pra mim... Por isso que não fazia idéia de como havia chegado àquela situação. Por isso que não senti o corte, por isso o porquê daquele local apertado, daquela "corda" e daquele estranho fluido que distendeu meu tórax. Não se tratava de um cirurgião num ato emergêncial de heroismo, tampouco se tratava da minha própria morte. Ou melhor, na verdade tratava-se da minha própria vida, mais precisamente a angustiante experiência de meu nascimento....


(to be continued)

12 comentários:

Anônimo disse...

Mestre!

Já tentei tecer algum comentario varias vezes diante seu texto...
mas ao acabar de escrever, vejo que nao elogiei o bastante...
estava ficando angustiado...
ao me dizer que tinha escrito algo sobre sua "morte" fiquei perplexo por nunca ouvir de vc durante nossas conversas boemias...
mas ao ler, reler e ler mais uma vezes, digo que nao tenho nada a dizer...
para entender meu comentario e só saborear seu texto...
para mim, um dos seus melhores


Abraços

Anônimo disse...

Gildo,GRANDEEE GILDO
O nascimento,meus parebens pelo lindo texto e pelo dom que tens de escrever...estou a espera de novos
beijo grande
NATHALIA FREITAS

Gildo Passos Jr. Prazer! disse...

Caro Alexandre... The Great.
Entendo perfeitamente sua angustia. Pois é uma angustia q eu tenho em algumas situações tb. O de achar q o elogio foi pouco. Na verdade de não conseguir captar com palavras a altura da admiração q se tem. E percebo q vc n era assim...
Será q tudo começou em: "essa foto tá do Kral*#&@¨&, a melhor q eu já tirei na vida.." e vc: "é ficou bacana!". Talvez ali vc tenha começado a minha mania... mas q gera angustias as vezes....
A saida é escrevermos logo um texto juntos.... heheheheh

Gildo Passos Jr. Prazer! disse...

Querida Nathy...
Pois é o meu nascimento. Mas poderia ter sido o seu, ou o de qualquer um. Realmente aos olhos do bebe, não deve ser uma experiencia muito legal, nem física nem mental (medo do desconhecido).... a sorte q em todos os casos há uma super compensação imediatamente logo após a saida.... o abraço da mãe!!
Sucesso aí em Andorra!!! Um paisinho entre a Espanha e Portugal q nem sabia de sua existencia...
Bjoss

Unknown disse...

Amore!!!!
Você é incrível mesmo... Meu Deus...
Arrebatador...
Fulminante...
Não sei o que dizer...
Surpreendente em cada parágrafo...
Incrível mesmo!
Pela parte inicial que você tinha enviado para mim, eu não podia imaginar o final... Não pude supor que se tratava do seu nascimento...
Supera quaisquer expectativas...
Com o nosso exagero habitual = Maravilhosíssimo...
Agora as expectativas para a parte dois estão gigantes...
Adianta um pedacinho, vá... Custa nada...
Bjo!
Amandinha

Martinha disse...

Mestre meu querido!

Figura admirável! Grande presente: Conhecê-lo! Graças ao mestre dos mestres, nosso Gigante Alexandre.

To aqui matutando para tecer um cometário digno e que esteja a altura de seus textos. Não consigo!

Seus dizeres são ímpares, interessantes, apaixonantes. A fórmula? Não sei! Talvez seja um dom ou não... Talvez seja o seu coração. Nobre e lindo coração. Acho que ele é o responsável por todas essas palavras que nos tocam e nos fazem refletir.

Lendo sobre sua "morte" foi como, desculpe-me a ousadia, mas foi como se estivesse vivendo e vendo a minha também. Nunca tinha prestado tal atenção ao dia de meu nascimento e muito menos refletido sobre o conforto em que me encontrava dentro do ventre de minha mãe!

Bom, li uma vez que: "Não existe crescimento na zona de conforto". Talvez por isso nasçamos? Não sei...

O que importa é aonde chegamos e onde podemos chegar!

Beijo no coração Mestre!

PS: Perdoe-me pelos erros de português (risos)

Unknown disse...

Ao Lactente Gildo Passos Jr.,

Primeiramente, as protocolares congratulações se fazem necessárias devido à dinâmica narrativa, extremamente rica e envolvente...!
Segundo, que memória "du carai" tu tens meu amigo! Queria ter mínimas percentagens dessa tua memória com recentes apostilas do medcurso! Lembras de tua amiguinha do berçário?! Falei com ela outro dia.. me disse que tu choravas demais de madrugada além de eructações sulfúricas meconiais em demasia..
Terceiro, repasse os agradecimento à sua mãe e seu obtetra que optou por uma cesárea eletiva... imagine suas lembranças passando por aquele canal rico em germes gram negativos e enterobactérias típicas da gestação sem falar na flora fisológica em permanente simbiose - ou não. O fluconazol 150mg está aí pra ilustrar..!
Quarto, ficam os pedidos desse pueril internauta que até então não tinha seu blog entre os sites favoritos, mas que sempre foi um fã de sua singularidade como prosador e cronista para que continue nos brindando com textos tão orginais e criativos.
Abração meu velho !!!

Gildo Passos Jr. Prazer! disse...

Oiii Amandinha..
Vc n sabe como fico feliz e lisongeado com seus elogios. Confesso q estarei bastante feliz se 50% doq vc fala for verdade.
Pelo menos sei q se algum dia escrever um livro, pelo um eu vendo né? O seu. Xiiiii, a não ser q vc prefira um como presente. Ai lascou..
E desculpe ter tirado seu sono... mas acho q valeu pela surpresa do final....
hehehehehe
Bjoss

Gildo Passos Jr. Prazer! disse...

Querida Martinha...
Eu q agradeço tê-la conhecido. Realmente tenho q agradecer ao Gigante.
E repito oq falei acima, se seus elogios forem 50% de verdade, vou começar a pensar em largar Medicina e virar escritor de Blog. Oq achas??? heheheheh
De qqr forma, obrigado!
E volte sempre. Espero q tenhas gostado daqui.
Bjoss

Gildo Passos Jr. Prazer! disse...

Grande Fred Tadeu, bemmm nem tão grande assim...

Figura extremamente criativa é uma honra tê-lo visitando meu blog. E agora q o adicionou aos seus favoritos, vou ter mais cuidados com os proximos textos... hehehehe
Vou fosforilar um pouco mais...

E ainda bem q foi uma cesarea eletiva neh? Se vc por via transpelviana seria obrigado, graças a minha memória "super bionica" a colocar um paragrafo que relatasse a passagem não tão agradavel pelo tunel cheiro dos germes q falou....

E ainda estou aguardando tomarmos vergonha e escrevermos nosso livro sobre relacionamentos amorosos...

Abraços

Anônimo disse...

Gildo,
precisei dar um tempinho para vir aqui tecer um comentário sobre seu texto, precisei me concentrar pra te dizer o quão impressionada fiquei, precisei vir aqui de todo jeito elogiar você e parabenizá-lo pelo dom que lhe foi dado. Não sei quanto aos outros, mas a mim o texto surpreendeu de forma realmente surpreendente... um final totalmente inesperado! Não me contentei em ler apenas uma vez. Posso afirmar, sem dúvida, que foi o melhor texto dos últimos tempos, aquele que deixa claro o seu talento, talento que na minha opinião deve ser divulgado para mais que amigos, digno de um bom livro!!! Mais uma vez, parabéns. Que venham os próximos :)

Gildo Passos Jr. Prazer! disse...

Querida amiga July...

Vc hein! N cansa de me surpreender.
N tem idéia de como valorizo elogios vindo de pessoas especiais como vc. Me enchem de orgulho, e qqr dia me convenço e lanço o livro q vc sugeriu acima.
Como falei é a terceira pessoa a dizer isso. E três é meu numero da sorte. hehehe
Se um dia ele se concretizar, mesmo eu já estando velhinho, pode ter certeza q seu nome estará nos agradecimentos e com destaque.
Enfim, td de bom pra vc!!
Vc merece.
E sucesso na sua nova paixaozinha.... que venham mtos projetos por aí.