Talvez seja dificil para vc acreditar, mas como falei na definição do post passado, formei-me em medicina no final de 2005. Dificilmente existe curso de graduação mais apaixonate, e tb dificilmente exista outro curso que exija tantas abnegações, renúncias. Sem dúvida, o auge do curso é na festa de formatura 6 anos após o início. Participei da criação do convite de formatura com alguns textos, que tem grande importância por permitir ficar pra posteridade. Dois desses textos exponho a seguir:
Sem direito à inumação, ao préstito fúnebre,
à epigrafe em lápide qualquer.
Sem datas, sem nomes, tua carne desnuda,
numa espécie de altar,repousava inerte:
apenas teus despojos mortais te definiam.
Por teu falecimento não incorreram lutos, sobre teu peito não derramaram lágrimas, sobe teu ataúde não jogaram flores, por tua alma não suplicaram preces. Se outrora ignorado, és agora requisitado e estudado horas a fio, noites adentro. Se em vida não contribuíste com grandeza para algum fim, hoje tens importância incontestável na edificação de nossos conhecimentos.
E por agradecimento, por respeito e em tua memória, rendemos esta póstuma homenagem.
Foram muitos passos por um caminho tortuoso, intricado, às vezes pedregoso. Alguns passos firmes, outros inseguros, mas conseguimos! Após anos de luta, nossos esforços, enfim, recompensados: uma etapa marcante de nossas vidas, agora, se insinua: seremos médicos, ou melhor, já somos médicos! Concretizamos um sonho!!
Na verdade, um sonho muito mais do que apenas nosso, um sonho de um pai, de uma mãe, de uma irmã, dos avós, os quais providencialmente nos apoiaram, e agora com quem honestamente dividimos nossa vitória.
Nesse momento de risos e comemorações, outra cousa nos salta aos olhos: não são só de alegrias esse momento, pois é também chegada a difícil hora da despedida. Da nossa segunda casa, a faculdade; dos amigos que lá fizemos (dos funcionários aos professores); do convívio diário de nossos “irmãos” de sala; enfim, de tantos momentos marcantes e importantes para nossa maturidade.
Cabe agora uma pertinente e salutar indagação: será que realmente queremos ser médicos? Será que já pensamos o que vai ser de nossas vidas?
Renunciaremos à vida privada. Terminado o labor, não poderemos como os outros isolar-nos. A toda hora à nossa porta virão atrapalhar nosso descanso, nossa meditação; já não teremos horas para dedicar à família, à amizade. Já não mais nos pertenceremos.
Presenciaremos o que há de mais feio na espécie humana, maltratando nossos sentidos: colar o ouvido contra peitos suados, respirar odores repugnantes, palpar tumores, contemplar urinas, esquadrinhar esputos, fixar a vista e o olfato em imundices, meter o dedo em muitos lugares. Ademais conviver com a dor lancinante das almas que agonizam; com a impotência frustrante diante do incurável; ou, na própria alma, sentir a dor pungente de quem perde um parente; ou mesmo a hipocrisia que, à cabeceira do moribundo, faz cálculos sobre a herança.
Após tudo isso, impossível não se questionar: será que realmente vale a pena ser médico?
A resposta de pronto, clara como a água, decerto grita convicta de dentro de nós: não há dúvidas! Faríamos tudo novamente! Inexiste profissão mais nobre, mais bela, mais recompensadora. Um sacerdócio, onde teremos alma estóica para, perante os ingratos, satisfazer-nos com o dever cumprido. Regozijar-nos-emos com o provento mais valioso: o choro sincero de uma mãe que acaba de dar à luz, ou o rosto que sorri porque a dor se aliviou, ou com a paz de um moribundo a quem acompanhamos até o final. Neste momento, lembro-me outra alegoria: “O milionário, vendo a freira tratar daqueles leprosos, disse: ‘Freira, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo. ’ E ela responde: ‘Eu também não, meu filho’“.
O momento agora? Confiança de seguir adiante, prestes a nos aventurarmos por um muito mais apaixonante horizonte que se abre à nossa frente. Sobre essa nova e importante etapa, dedico-vos este soneto:
Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E á rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!
Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.
Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,
Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!
(Vencedor / Augusto dos Anjos)
Decerto que nesta nova empreitada conquistaremos muito, vitórias e vitórias se somarão. No entanto, percalços e dificuldades surgirão pelo caminho.... que venham incertezas, uma, duas, cem dificuldades, guerreiros ou possantes gladiadores, mas desejo-vos que assim como o coração de um poeta, triunfeis em todas as arenas! Nada consiga domar-vos, vossa convicção, vossa perseverança, tampouco vosso lídimo amor à profissão. Mesmo assim, caso um dia ameaceis fraquejar, lembrai-vos: “Toma as espadas rútilas, guerreiro...” Parai! Respirai! Não desespereis! Sede forte! De cabeça em riste segui em frente! Segui e orgulhai até vossa última gota de sangue. Sereis recompensados. Caso, porém, isso apenas não baste: fechai os olhos e senti-nos lado a lado, nos apoiando mutuamente, tornando tudo mais fácil, como sempre fizemos.... que mesmo a distância (caso seja a realidade) nos ajudaremos.
E se a saudade bater? Ah! Caros amigos, tenham certeza, ela virá. E nesse instante saberemos que tudo não foi em vão. Nossa memória, repleta de uma miríade de preciosidades, prontas para serem ressaboreadas a qualquer momento, fazendo jus a célebre frase do romancista francês Marcel Proust: le vrai voyage est amené dans la mémoire (a verdadeira viagem se faz na memória).
E agora? Temos mesmo que nos despedir? É isso mesmo? Mesmo auspiciosos com o porvir de nossos colegas, não é fácil esse momento. Mas nos despedimos com a certeza que nosso reencontro já está marcado: em breve! E quando a saudade bater? Resta-nos o consolo desta certeza:
“Ter afinidade é muito raro.
Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.
É um dos poucos sentimentos que resistem ao tempo e ao depois. Não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos.
É o mais independente.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto no exato ponto em que foi interrompido. ” (Artur da Távola)


Nenhum comentário:
Postar um comentário